Os Salmos Imprecativos
(Vários, Veja Abaixo)
por David Holder
Culto domingo de manhã. O irmão
Carlos dirigirá nossa primeira oração (depois de dois hinos, naturalmente!).
Cantamos sobre o amor de Deus e sobre nosso amor ao próximo. O irmão
Carlos ora: "Ó Senhor, há pessoas ímpias no mundo, e a sua
impiedade às vezes insulta, fere, e ameaça os justos. Ó Deus,
quebre-lhes os dentes na boca; arranque-lhes as presas de leão, ó Senhor.
Destrua-os em ira, destrua-os para que não existam mais. Que seus olhos
fiquem escurecidos, para que não possam ver, e faça com que seus lombos tremam
continuamente. Que sejam apagados do livro dos vivos e que não possam ser
registrados com os justos. Que brasas vivas caiam sobre eles; que sejam
atirados no fogo, em covas profundas das quais não possam sair."
Depois que a congregação se recupera, esta é, provavelmente, uma boa hora
para uma lição sobre os "salmos imprecatórios". Os adoradores
poderiam ficar chocados ao saberem que o irmão Carlos expressou sentimentos
tirados diretamente de diversos Salmos (58:6; 59:13; 69:23,28; 109:9,13;
140:10). O assunto da conversa após o culto daquele dia seria,
obviamente, a linguagem chocante da oração do irmão Carlos, e se ele estava
certo em orar deste modo sobre os ímpios.
Estas imprecações ou maldições empregam linguagem veemente e violenta contra
os inimigos e os malfeitores. Tais expressões são freqüentes em vários
Salmos (35, 58, 59, 69, 83, 109, 137, 140) e em comentários breves (5:10,
10:15, 17:13; 54:5, 55:9, 139:19, etc.). Somos ajudados no entender esta
linguagem rude conhecendo as categorias dos justos e dos ímpios que dominam os
Salmos, categorias distintas desde mesmo o primeiro Salmo:
"Bem-aventurado o homem . . . [cujo] prazer está na lei do Senhor . . .
Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas . . . Os ímpios não são
assim; são, porém, como a palha que o vento dispersa."
Os ímpios, os malfeitores e os inimigos são proeminentes através dos Salmos
(veja 10:1-10 e 36:1-4 para descrições mais longas). Eles são maus,
enganadores, orgulhosos, violentos, cruéis, etc. Eles oprimem, ameaçam,
agridem, perseguem, como também agem maliciosamente contra indivíduos, a nação
e Deus. Os salmistas estavam, obviamente, no mundo real, vendo com seus próprios
olhos e algumas vezes experimentando em suas próprias vidas as injustiças,
crueldades e violência que essas pessoas fazem a outros seres humanos. Os
salmistas estavam enfurecidos e suas almas inflamadas até o ponto de uma justa
reação contra o mal.
A congregação é também ajudada reconhecendo que os salmistas geralmente são
cuidadosos em tomar o ponto de vista de Deus, nestes assuntos: "Não
aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem? E não abomino os que contra ti
se levantam? Aborreço-os com ódio consumado; para mim são inimigos de
fato" (139:21-22). Não é só uma afronta pessoal que enfurece
os salmistas, mas seu entendimento de que tal impiedade é uma afronta a Deus e
a eles, em sua busca de Deus.
E mais ainda, os cristãos deveriam perceber que, como na linguagem da oração
do irmão Carlos, a linguagem da maioria dos Salmos imprecativos é dirigida a
Deus. Os salmistas apelam para Deus para ativar as maldições adequadas
em conseqüência das palavras e dos atos ímpios. Sem dúvida, os salmistas
suportaram pessoalmente o impacto do mal em muitas situações, mas eram
cuidadosos em deixar a vingança nas mãos de Deus (Salmo 94:1-7). Eles não
se envergonhavam de expressar seus sentimentos de medo, mágoa e cólera, mas
por outro lado não tomaram as situações em suas próprias mãos.
Os cristãos precisam ser persistentes na oração pelos nossos inimigos,
recusando tomar vingança pessoal, e pagando o mal com o bem (Mateus 5:38-48;
Romanos 12:14, 17, 19-21). Mas o irmão Carlos estava certo em orar como o
fez, se a oração não surgisse da ira pessoal (1 Coríntios 16:22, 1 Timóteo
1:20). Deveremos ficar ofendidos e indignados com o mal do mundo e os
malfeitores. Não ousamos minimizá-los levianamente ou pensar que não importa.
Há algumas pessoas e algumas ações que são tão espalhafatosamente más, tão
flagrantemente contra Deus e o contra o bem que temos que reagir com justiça.
Oramos para que os ímpios possam conhecer Jesus e seu amor; oramos para que
eles procurem seu perdão e justiça. Ao mesmo tempo, oramos por justiça,
honra e verdade. Oramos para que o mal seja diminuído e vencido
(Apocalipse 6:12-17; 14:9-12; 16:4-7; 18:1-19:7), para que cada joelho se dobre
diante de Jesus e cada língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória
de Deus Pai (Filipenses 3:9-11).
|