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Os Cegos e o Elefante

Uma parábola antiga, original da Índia, tem servido como base de poemas e ilustrações filosóficas ao longo dos séculos. John Godfrey Saxe, um poeta norte-americano do século 19, publicou uma versão dessa fábula em inglês. Ele falou de seis cegos que foram conhecer um elefante. Cada cego, tateando uma parte diferente do animal, chegou a uma conclusão diferente. O homem que encostou no corpo comparou o elefante com um muro. O cego que tocou a tromba entendeu que fosse como uma grande cobra. Quem apalpou a perna comparou o animal com uma árvore. O cego que pegou o rabo do enorme mamífero percebeu que fosse parecido com uma corda grossa. E assim em diante, cada pessoa, com sua percepção limitada de uma pequena parte da realidade, chegou a uma conclusão diferente. Discutiam as diferenças, mas o orgulho de cada um impediu que chegassem ao entendimento mais completo, e impossibilitou um final feliz e harmonioso.

A estória tem sido usada de forma interessante e instrutiva em diversas disciplinas. O ponto óbvio é de procurar entender toda a realidade de um assunto antes de defender um ponto de vista e rejeitar outro. Sem dúvida, há proveito prático em muitos aspectos da vida. Os últimos dois versos do poema de Saxe apresentam uma das aplicações comuns, a mesma que quero focar neste artigo. Traduzido do inglês ao português (e assim perdendo o ritmo e as rimas), a versão de Saxe termina com esta aplicação:

E assim esses homens do Hindustão discutiram com vigor por muito tempo,

Cada um em sua própria opinião demasiadamente rígida e forte,

Embora cada um estivesse, em parte, certo, todos estavam errados!

Então, muitas vezes, em guerras teológicas, os disputantes, eu acho,

Debatem em completa ignorância do entendimento dos outros,

E discutem sobre um elefante que nenhum deles jamais viu!

É claro que os possíveis usos dessa fábula são muitos, mesmo no contexto da teologia. No sentido mais estreito, a teologia é o estudo de Deus. Dessa perspectiva do poema, o elefante representa Deus e a conclusão comum é a defesa do pluralismo. Cada um tem sua perspectiva de Deus. Ninguém pode dizer que os outros estão completamente errados, nem pode defender seu conceito de Deus como o correto. Muitos pensam que a conclusão seria uma atitude de ser humildes e reconhecer nossa ignorância sobre Deus para podermos aceitar as perspectivas divergentes. Mas antes de usar a ilustração do elefante para nos assegurar que a ignorância espiritual e o pluralismo sejam desejáveis, vamos pensar sobre alguns fatos.

Deus é eterno e ilimitado, e assim muito além da capacidade humana de compreender. Ele é incomparável (Isaías 40:25) e sublime (Isaías 57:15). Seus pensamentos e seu amor são além da nossa compreensão (Isaías 55:8-9; Efésios 3:19).

O homem pode buscar e tatear para perceber que Deus existe (Atos 17:24-28; Romanos 1:19-20; Salmo 19:1). Alguns atributos de Deus podem ser vistos nas obras da natureza, mas esse meio de buscar a Deus não é suficiente para conhecer a sua vontade para suas criaturas humanas.

Vamos voltar à parábola do elefante e fazer uma pergunta sugerida por Kevin DeYoung, outro autor norte-americano: “E se o elefante falasse?”. Como seria diferente essa analogia se o elefante explicasse seus atributos e sua vontade para os cegos? Ele poderia dizer: “Sim, tenho tromba como uma cobra e perna como uma árvore, mas também tenho outras características que vocês precisam entender. E ainda mais, vocês devem fazer o que eu falo para viverem bem na minha presença”.

Essa antiga parábola indiana pode descrever a incapacidade humana de conhecer a Deus sem orientação e revelação, mas Deus tirou todas as nossas desculpas quando se revelou na pessoa de Jesus Cristo e nas palavras registradas nas Escrituras. Temos nossas limitações, mas a palavra de Deus nos mostra como superá-las para chegar ao conhecimento do Senhor! Os humildes não defendem sua ignorância; os verdadeiros humildes buscam conhecimento daquele que se revelou!

–por Dennis Allan