Share Button

31. As Coisas Sem as Quais Não Podemos Viver

"E perdoa-nos as nossas dívidas . . ." (Mateus 6:12). Tendo começado com a petição que trata do cuidado de Deus conosco ao nível mais elementar, as necessidades materiais diárias, Jesus inclui duas petições que dizem a respeito de alguns imperativos absolutos da vida espiritual. A primeira é um apelo de perdão. Se há algo de enigmático sobre a forma que este apelo toma, é o uso da palavra "dívidas". O significado pretendido por nosso Senhor é esclarecido pelo relato de Lucas da oração-modelo, que tem "pecados" em vez de "dívidas" (11:4). Jesus está simplesmente usando uma metáfora para nosso fracasso diante de Deus. Devíamos algo a ele, como suas criaturas e seus filhos, que não pagamos e que agora estamos incapazes de pagar. O pedido de perdão está no tempo presente e fala à mercê do presente atual, não ao tempo futuro do julgamento.

Este simples apelo de perdão pelos nossos pecados, como uma necessidade do cidadão do reino, dá testemunho do fato que, ao tornar-nos cristãos não termina a batalha com o pecado, nem nossa necessidade de graça. Tem que haver uma contínua e crescente sensibilidade ao pecado e a todas as coisas vergonhosas e desonrosas. Alguns discípulos deixam-me com um pressentimento assombrado, por sua teimosa recusa em confessar e procurar o perdão, até mesmo, pelos erros mais óbvios. Admiramo-nos se eles jamais experimentaram o arrependimento ou, tendo-o experimentado, deixaram-no de lado permanentemente, como um evento antigo. Se jamais conhecemos uma verdadeira mudança do coração para com Deus, então estamos ainda em nossos pecados e tudo o mais não vale nada. O pecado não é somente um fenômeno que acontece só uma vez, para o cristão (1 João 1:7-9). Nem o arrependimento é. Esta é a razão pela qual é um pensamento feliz saber que a misericórdia de Deus também não é uma oportunidade única, e que sua graça é maior do que todos os meus pecados.

Deus está, certamente, ciente de nossas necessidades materiais mas podemos sobreviver à perda do "pão de cada dia". Na verdade, há indicação de que podemos ser chamados a fazer isso. Paulo fala de fome, sede, frio, e nudez, que ele sofreu a serviço de Cristo (2 Coríntios 11:27). Mesmo as vidas do povo de Deus não estão isentas da morte (Lucas 21:16; Apocalipse 6:9). Mas a perda que não podemos agüentar é a da divina misericórdia e força. Podemos sofrer a perda de todas as coisas, mas não podemos sofrer a perda de Deus.

". . . Como nós temos perdoado aos nossos devedores" (Mateus 6:12b). Jesus acrescenta esta observação ao apelo para o perdão. O tempo do verbo, aqui, fala do que tem estado acontecendo no passado até o presente. É interessante notar que as pessoas que são implacáveis e difíceis de suplicar são geralmente pessoas que acham quase impossível confessar e renunciar aos seus próprios erros. Aqueles que recusam misericórdia aos outros evidentemente demonstram a Deus uma total falta de espírito de humilde penitência, necessário para obter o perdão divino (6:14,15; 5:7). Isto é poderosamente expresso na parábola do servo que teve perdoado o débito do incrível valor de $10 milhões e saiu e rudemente agarrou pela garganta o companheiro que lhe devia $17 (Mateus 18:21-35).

"E não nos deixes cair em tentação . . ." (Mateus 6:13). Esta petição reflete o desejo do homem perdoado de viver uma nova vida, vencendo as fraquezas que antes o haviam abatido. Deus planeja que seu povo não somente seja perdoado, mas também transformado. "Tentar" e "tentação", no Novo Testamento, são virtualmente traduções, da mesma palavra grega, respectivamente (peirazo; peirasmos). Significa experimentar ou pôr à prova. Estas provações podem vir de Deus mesmo e serem planejadas pelo bem de seus filhos (Tiago 1:2). Nossa fé pode ser testada por um duro mandamento (Hebreus 11:17). Tentação ou provação, pode vir pela perseguição, que obviamente tem sua origem em Satanás (1 Pedro 4:12), mas pode ser usada por Deus para purificar nossa fé (1 Pedro 1:6-7). Sofrimento físico, aflição e calamidade podem ser fonte de provação, como foi a verdade no caso de Jó. Satanás foi a fonte das dificuldades de Jó, mas Deus usou-as para beneficiar seu servo. Tal foi o caso de Paulo e seu espinho na carne (2 Coríntios 12:7). Mas o entendimento clássico de tentação e, eu creio, o que está agora em consideração, é a tentação para o mal. Estas são as tentações referidas em Tiago 1:12-14, onde o autor está se esforçando para explicar que tais tentações não vêm de Deus. As tentações, das quais a súplica da oração-modelo busca livramento, têm a ver com o "mal" ou com o "maligno" (6:13b).

Por que haveríamos de procurar ajuda de Deus em matéria de tentações que provêm de nossas próprias concupiscências e de maquinações do Diabo? Porque nosso Pai tem absoluto controle sobre o Tentador, o qual não pode funcionar sem sua permissão (Jó 1:10-12; 2:3-6), e porque ele prometeu dar-nos forças, pelas quais podemos "suportar" a tentação (1 Coríntios 10:13).

É este um pedido para escapar completamente da tentação? Isto é inconcebível, em vista de tais passagens como 1 Coríntios 10:13; Hebreus 4:15; etc. O que é muito mais provável, como evidência o apelo paralelo para sermos livrados do maligno, é que este é um rogo para sermos salvos do poder da tentação, de modo que não sejamos sobrepujados e levados a cair por causa disso. Então, em nosso tempo de forte tentação, corramos diretamente a nosso Pai "a fim de recebermos misericórdia e acharmos graça para socorro em ocasião oportuna" (Hebreus 4:16).


32. O Cristão e o Jejum

"Quando jejuardes, não vos mostreis contristados como os hipócritas . . ." (Mateus 6:16). Com estas palavras, Jesus começa o último dos seus três exemplos da verdadeira piedade em contraste com a postura vazia dos escribas e fariseus. Se aprendemos as lições ensinadas nos dois primeiros casos, não há grandes surpresas neste terceiro estudo. Seus ouvintes são, de novo, chamados a dirigirem seus corações a Deus e longe de si mesmos. Desta vez, o veículo de sua mensagem é o jejum.

O jejum era uma parte estabelecida na adoração do Velho Testamento. Havia apenas um único jejum público ordenado, o Dia da Expiação (Levítico 16:19-31) mas, em tempos de crises especiais, tanto a nação inteira (2 Crônicas 20:3; Esdras 8:21; Neemias 9:1) como os indivíduos, jejuavam (2 Samuel 12:16; Neemias 1:4; Salmos 35:13; 69:10). Nos anos do cativeiro, alguns novos jejuns foram evidentemente adicionados para comemorar as calamidades que aconteceram à nação, nas mãos dos babilônicos (Zacarias 8:19). Nos dias de Jesus, os fariseus tinham tornado o jejum privado em uma rotina habitual de jejum duas vezes por semana (Lucas 18:12).

A prática do jejum em Israel tinha um propósito espiritual. Esta abstinência de alimentos por breves períodos (usualmente um dia) nunca se pretendeu que fosse ascética ou terapêutica. Ele era apenas um meio de humilhar o espírito diante de Deus, em tempos de grande aflição (Salmo 69:10), e tinha uma quase inseparável ligação com a oração (Jeremias 14:12). O jejum era uma expressão de tristeza e se dizia que ele "aflija a alma" (Isaías 58:5). Ele era, portanto, acompanhado freqüentemente, no Velho Testamento, com os costumeiros sinais de luto: o uso de roupa de pano de saco e a cobertura de si mesmo com pó e cinzas (Neemias 9:1; Ester 5:1; Daniel 9:3).

Infelizmente, até mesmo o jejum do Dia da Expiação, que era para ser uma expressão nacional de humilde contrição pelos pecados de Israel, freqüentemente se tornava nada mais do que um ritual vazio. "Eis que", disse Deus através de Isaías, "jejuais para contendas e rixas . . . jejuando assim como hoje não se fará ouvir a vossa voz no alto" (58:4). A história do Velho Testamento se encerra com esta magoada pergunta do Senhor ao seu povo: "Quando jejuastes e pranteastes . . . foi para mim que jejuastes?" (Zacarias 7:5).

Foi no espírito dos profetas hebreus que Jesus repreendeu o mecânico jejum dos fariseus. Seu farsa infantil, a cara triste, a higiene negligenciada, era tudo com um só fim: "parecer aos homens que jejuam . . ." (6:16,18). O pecado dos "hipócritas" não estava na tristeza de suas faces ou na sua aparência desalinhada. Tal comportamento poderia, naturalmente, caracterizar o genuíno penitente que estava cativo da aflição de sua alma. O seu pecado não estava no fato de que outros soubessem que eles estavam jejuando. Jesus já havia esclarecido que Deus pode ser glorificado quando outros vêem nossas boas obras (5:16). O desastre ocorre quando fazemos nossas boas obras para obter glória para nós mesmos. Não é a adoração pública que ele reprova, mas a adoração para publicidade.

O ponto que Jesus faz em sua terceira ilustração da verdadeira piedade para com Deus é eminentemente claro, mas o assunto do próprio jejum tem sido a fonte de perguntas. O Senhor pretendia ordenar o jejum para os cidadãos do reino ou estava ele simplesmente falando aos seus seguidores judeus em termos que eles poderiam entender (por exemplo, "a oferta ao altar", Mateus 5:23-24)? Ele foi certa vez criticado pelos seus modos festivos e pela falha de seus discípulos em jejuarem como o faziam os fariseus e os discípulos de João (Marcos 2:18-22). Sua resposta foi que jejuarem seus discípulos enquanto ele ainda estava com eles seria tão impróprio como prantear em um casamento. Mas, ele disse, quando ele não estivesse mais lá, sua tristeza os levaria a jejuar. Tudo isto nos diz que os discípulos de Jesus não praticavam o jejum como um ato de devoção habitual. Diz-nos também que Jesus via o jejum como a expressão natural de tristeza e profunda preocupação e o achava impróprio para um tempo de alegria. Sua declaração de que seus discípulos haveriam de jejuar quando ele fosse afastado deveria ser entendida, não como um mandamento, mas como o reconhecimento de uma aflição que estava por vir. Mesmo isto não pode ser usado para descrever todo o período messiânico. Naquele tempo, Deus prometeu que seus jejuns se tornariam em alegres festas (Zacarias 8:19).

O que é evidente, quando lidamos com a relação dos cristãos com o jejum é que Jesus não instituiu nenhum dia de jejum para a igreja, quer público, quer privado. Não há também, nenhuma indicação de que ele ordenou o jejum como um ato usual de devoção. O que ele ensinou é que haverá tempos de profunda preocupação, quando o jejum será um companheiro natural de nossas orações. Isto parece ser exatamente o que era praticado na igreja de Antioquia, e por Paulo e Barnabé (Atos 13:3; 14:23) e deveria ser nosso guia atualmente.

O ativismo natural da mente ocidental nos levou a gastar pouco tempo em oração e na simples contemplação de Deus e sua palavra. Nossos labores seriam, provavelmente, muito mais frutíferos se gastássemos mais tempo em meditação e oração pensativa antes de começarmos nosso trabalho. E se a natureza crítica de nossas petições nos levassem a humilhar-nos diante de Deus e colocarmos nossos corações totalmente sobre ele pelo jejum, nada impróprio terá acontecido. O único cuidado de nosso Salvador é que adoremos a Deus por ele mesmo e não por orgulhosa ostentação.


33. O Coração Dedicado

Em Mateus 6:19-24, Jesus esboça seu tema do absoluto amor do cristão a Deus, mas de uma nova direção. A primeira e fundamental ameaça a este amor nasce do eu: o orgulho e a arrogância que corrompem todas as nossas tentativas de piedade (6:1-18). Seguindo de perto o problema do ego, está o desafio do "mundo"; não o universo, nem o povo que está nele, mas o "mundo" como uma disposição da mente, um sistema de valores, um modo de olhar a vida que entesoura o presente e o tangível, acima de tudo (Lucas 12:15).

Esta parte do Sermão é um apelo a dedicação total na escolha entre a terra e o céu. Jesus começa demonstrando a razão pela qual esse compromisso deve ser feito a Deus e continua com duas ilustrações calculadas para mostrar a miséria e a impossibilidade de tentar "ficar em cima do muro".

"Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra . . ." A advertência de Jesus sobre os tesouros terrestres não deve ser banalizada em uma proibição de contas bancárias, ou a mera possessão de qualquer coisa material. Esta admoestação não é para a questão de quanto dos bens deste mundo o cidadão do reino deveria possuir, mas diz respeito à sua atitude para com eles. Os "tesouros" deste texto são entendidos como sendo tudo aquilo em que um homem põe todo o seu coração. Não são só coisas a que damos valor, mas coisas que valorizamos acima de todas as demais. Nossos tesouros e nossas pessoas se tornam uma só coisa.

As observações de Jesus sobre a transitoriedade e a incerteza de tais coisas, como roupas, alimento e dinheiro, não constituíam novidade para seus ouvintes. O mundo dos dias de nosso Senhor era ainda mais visivelmente frágil do que o nosso. Em suas simples condições de vida, a podridão e o bolor, os insetos e os vermes atacavam seus armazéns com fúria, e suas paredes de adobe não ofereciam resistência aos ladrões, que podiam aniquilar uma vida inteira em uma noite. Nossa moderna refrigeração, bancos bem guardados e seguro contra desastres, nos levam freqüentemente a nos sentirmos seguramente afastados da inconstância do mundo antigo, mas todos nós deveríamos não acreditar. Todas as "coisas" são sujeitas, no final, à decomposição, não obstante o talento do homem. É impossível segurar a riqueza material contra a devastação do tempo e da circunstância. Ela é retirada de nós ou somos separados dela (Eclesiastes 6:13-15; Lucas 12:20), e se a tivéssemos para sempre, isso não nos traria satisfação duradoura (Eclesiastes 5:9-10; 6:7). Jesus pretende proteger-nos do horror de ver nossas vidas todas se desfazerem em fumaça (2 Pedro 3:10).

Não é preciso muito intelecto para ver que repousar a própria alma em tal insubstancial vapor é um ato de tolice, mas não devemos jamais subestimar o poder da cobiça para virar nosso senso comum em trêmula gelatina. Estamos vivendo numa época que avalia os homens pela riqueza que ajuntam. É loucura, naturalmente, mas este espírito pode infiltrar-se em nós antes que o saibamos e, subitamente, vemo-nos escavando insensatamente, em busca de "coisas" como todo mundo. O materialismo está destruindo muitos discípulos, alguns até quando estão "indo à igreja" fielmente. A charada continua, mas o coração deles não está mais nela. A prosperidade tornou-se a prova para nós que vivemos naquela que é, talvez, a mais rica sociedade da história humana, e esta prova é severa. Thomas Carlyle observou certa vez que, para cada dez homens que podem agüentar a adversidade, há um que pode suportar a prosperidade.

". . . mas ajuntai para vós outros tesouros no céu . . ." Esta não é uma exortação a que encontremos um modo de transferir as coisas que entesouramos na terra para um banco celestial. Se for, não há informação disponível de como fazê-lo. Uma vez, ouvi falar de um homem cujo amor a sua casa e a sua terra, juntamente com suas especulações milenaristas, o levaram a procurar um meio de garantir a devolução de sua propriedade, quando o Senhor vier para estabelecer seu reino na terra. Os tesouros do céu são totalmente de um tipo diferente daqueles que poderíamos acumular aqui.

A mensagem de Jesus é simples: "Aprende a apreciar as coisas do céu, as coisas que pertencem a vosso Pai. Somente estas durarão." Seu convite não é simplesmente a um tesouro melhor e mais durável, mas a uma total lealdade, um compromisso absoluto. Ter seu tesouro no céu significa, simplesmente, submeter-se completamente ao que está no céu: o domínio soberano de Deus ("faça-se a tua vontade . . ."). Este é o tema que continua nos versículos seguintes (6:22-24). A chave para o entendimento de todo este trecho é encontrada em 6:21: "onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração." O Senhor está muito mais preocupado com o que um homem faz com seu coração do que com o que ele faz com seus bens. As coisas não são nosso problema. Deus criou-as. A apreciação das coisas não é nosso problema. Elas têm um propósito dado por Deus. O amor pelas coisas, sim, é nosso problema (1 Timóteo 6:9-10): a disposição de permitir que algum lixo roído pelas traças tome o lugar do Deus incorruptível em nossos corações.


34. A Mente Singela

Para cada um de nós há somente uma breve e frágil existência para escolhermos o tesouro que moldará nossa eternidade. É uma escolha que pede tanto sobriedade como urgência. Jesus pleiteia que coloquemos nossa confiança no Deus eterno, cuja graça e poder transcendem o tempo, não nas "coisas" corruptíveis, que o tempo destrói (veja 1 Timóteo 6:17). Este é, exatamente, o ponto da observação de Moisés em seu discurso de despedida a Israel: ". . . Ele te humilhou, e te deixou ter fome, e te sustentou com o maná . . . para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor" (Deuteronômio 8:3). A riqueza inerte deste mundo não é mais do que pó na boca, mas ter uma justa relação com Deus, esta é a coisa que faz um homem verdadeiramente rico.

É uma falha fatal do caráter "desejar ser rico", qualquer que seja a razão (1 Timóteo 6:9). Este é um dos sintomas da "loucura pelas coisas". Não é encorajador ouvir um cristão dizer que quer obter riqueza para poder sustentar pregadores do evangelho ou cuidar dos pobres ou fazer alguma outra boa obra. É bem provável que, antes que esses necessitados vejam a cor daquele tão desejado dinheiro, a alma desse cristão já tenha se tornado cativa da cobiça. Que ele aceite com grato contentamento o que Deus já lhe deu e o use de maneira altruísta. Se um filho de Deus se tornar rico, que nunca seja porque ele assim o planejou.

Se tivermos êxito em colocar nosso tesouro no céu, será porque pusemos todo o nosso coração na tarefa. Não há lugar para vacilação, indecisão ou indiferença em nossa atitude para com Deus e o seu reino. Temos que escolher o céu, e escolher sem restrição. Como um escritor observou, não há nada mais perigoso do que tentar pular um abismo em dois saltos.

"São os olhos a lâmpada do corpo. Se os teus olhos forem bons, todo o teu corpo será luminoso; se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas." (Mateus 6:22-23). Jesus continua sua instrução sobre a batalha do cristão para manter o mundo fora de seu coração, com uma simples ilustração. Ele compara a função do olho para o corpo com a influência da meta suprema de uma pessoa sobre o seu coração. O olho age como a fonte da luz para o corpo. Um olho "bom" (são, perfeito) enche o corpo de luz. Um olho "mau" (malsão, defeituoso) deixa o corpo na escuridão. A aplicação vem em sua observação conclusiva (versículo 23b): "Portanto, caso a luz que em ti há sejam trevas, que grandes trevas serão!" Sendo o olho a janela pela qual todo o corpo é tanto iluminado como escurecido, dependendo de sua condição, assim os "olhos do coração" (Efésios 1:18) determinam se o espírito do homem é inundado de luz ou mergulhado nas trevas sem Deus. É bastante trágico ser-se fisicamente cego, mas quando é negado ao espírito a verdadeira visão, quão mais profunda essa escuridão da alma é! Um coração singelo dá claridade e integridade. Um coração dividido dá confusão e desordem. Há tristeza numa pessoa que é sempre indescisa e vai através da vida na constante agonia de sua indecisão. Ela nunca sabe quem ela é ou o que ela deve fazer, nenhum princípio que guie, nenhum compromisso que comande, e cada encruzilhada é um trauma renovado. Quão grande é essa escuridão!

O olho "bom" é o coração que ouve o evangelho com simplicidade sincera ao máximo. É a mente que recebe o evangelho com decisão irrestrita. A visão espiritual é enuviada pela preocupação insaudável com as coisas. O materialismo se torna a catarata da mente. Uma razão pela qual muitas pessoas simplesmente não podem ver o evangelho nem entender a Bíblia é porque isso não se ajusta com suas pressuposições sobre a importância da riqueza. Os cristãos que subitamente ficam confusos e incertos quanto às exigências da vida no reino estão freqüentemente experimentando, não tanto uma luta intelectual, quanto uma espiritual. A luz do evangelho não chega até aqueles cujas lealdades estão divididas. Como Jesus certa vez observou, "Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo" (João 7:17). Tiago diz bem a mesma coisa nas exortações práticas de sua franca epístola: ". . . pois o que duvida é semelhante à onda do mar, impelida e agitada pelo vento. Não suponha esse homem que alcançará do Senhor alguma cousa; homem de ânimo dobre, inconstante em todos os seus caminhos" (1:6-8).

As bênçãos do reino de Deus não são rateadas na base de percentagens: tantas bênçãos por quanto bem foi feito. Com Jesus é tudo ou nada. Ou damos tudo e recebemos tudo, ou cambaleamos e vacilamos e não obtemos nada. Aqueles que, afortunadamente, aproximam-se do reino do céu, têm que aprender o poder e a disciplina de escolher "a boa parte" (Lucas 10:42), fazendo "uma coisa" (Filipenses 3:13), andando no "caminho apertado" (Mateus 7:13). Esta lição é bem expressa nas palavras de um hino: "Pois nunca poderemos experimentar os prazeres do seu amor até que coloquemos tudo no altar; pois o favor que ele mostra e a alegria que ele concede são para aqueles que confiarem e obedecerem."


35. A Impossibilidade das Lealdades Divididas

Um dos fatos menos notáveis sobre os fariseus é que eles eram "avarentos" (Lucas 16:14). Jesus relatou a parábola do Administrador Infiel, para o benefício deles, mas escarneceram de sua lição. Não seria, pois, surpreendente que um sermão, que era em grande parte dirigido aos modos tortuosos e corruptores da mente farisaica, deveria conter uma rija advertência sobre os perigos de uma tão grande afeição pelas coisas. A cobiça é sutil. Ela é exatamente o tipo do câncer espiritual que parece conviver facilmente com uma grande demonstração de piedade. Ela não aparenta a escancarada feiura da imoralidade grosseira, entretanto, este "mundanismo respeitável", por via de sua sutileza, torna-a ainda mais perigosa.

"Ninguém pode servir a dois senhores . . ." (Mateus 6:24). Para mostrar a impossibilidade de tentar "conciliar" entre Deus e o mundo, Jesus emprega a ilustração de um homem tentando servir a dois senhores. A força de sua linguagem será melhor sentida se compreendermos que a palavra traduzida como "servir" vem do grego douleuein, que significa "ser um escravo de". A palavra traduzida como "senhor" é kurios, que sugere total propriedade e domínio. Um homem simplesmente não poderia ser um escravo de dois proprietários, ambos exigindo total servidão. O esforço resultaria em não satisfazer a nenhum senhor e tornar desgraçada a vida do escravo que o tentasse. Ele acabaria sendo forçado por uma situação impossível e intolerável a resolver sua desgraça, escolhendo um deles.

"Riqueza" é usada tanto aqui como em Lucas 16:9,11,13. O Senhor está lidando com o amor ao dinheiro, como um rival do verdadeiro compromisso com Deus. Em Lucas, as expressões "riquezas da origem iníqua" e "riquezas da origem injusta" (16:9,11) são usadas provavelmente significando não tanto que havia algo intrinsecamente mau com as riquezas, como que o dinheiro e as posses materiais têm sido acompanhados, muito freqüentemente, com afeições e comportamento iníquos.

Não há tal coisa como uma pequena cobiça. O amor às coisas não admite rivais e Deus, no final, será expulso (1 João 2:15-17). Por esta razão, torna-se perigoso agasalhar em nosso coração qualquer fascinação pela riqueza deste mundo. O materialismo tem um apetite voraz e cedo consumirá a personalidade que lhe oferecer uma abertura. Entretanto, quando ele finalmente domina sem restrição, ele não traz nem paz, nem satisfação e nenhuma felicidade duradoura. Deus também deseja ter-nos exclusivamente para ele, mas em nosso benefício, não no dele. O dinheiro nos consumirá. Ele nos completará. Homens que foram feitos para Deus não terão paz separados dele.

O mundo greco-romano, ao qual o evangelho chegou primeiro, era um mundo onde os homens não eram chamados para escolher entre deuses, mas chamados para servir tanto quanto possível. Havia sempre lugar na coleção dos deuses romanos para mais um deus ou mais outro culto de mistério e os homens estavam mais preocupados com o perigo de servir tão poucos deuses do que em servir a deuses demais (Atos 17:22-23). Nenhuma de suas divindades fazia qualquer reivindicação exclusiva sobre suas vidas e as exigências que faziam eram mais rituais do que morais.

O único afastamento significativo das religiões excessivamente acomodatícias do mundo antigo era a religião dos judeus. O Deus de Abraão, Isaque e Jacó estava implacavelmente em guerra com todas as outras divindades, não tolerando nenhum rival, exigindo absoluta lealdade (Êxodo 20:3-4; Deuteronômio 6:4-5). E era este espírito e este desafio à escolha radical e inequívoca que Jesus pressionou em todo o seu ensinamento e, especialmente, aqui no Sermão da Montanha.

Não deveria surpreender-nos que "o Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe" (Atos 17:24) haveria de exigir o primeiro lugar em nossas vidas. Qual outro lugar concebível poderia ocupar aquele de quem recebemos nosso alento? Está além da imaginação pensar que o verdadeiro e santo Deus haveria de sujeitar-se a ser classificado, em nossos corações, abaixo da mera e inerte riqueza. Mesmo nossas famílias não devem rivalizar com ele (Mateus 10:37), e, mais significativo de tudo, nem mesmo nossas próprias vidas (Lucas 14:26).

A riqueza deixará de atrair-nos tão perniciosamente quando, finalmente, constatarmos que as riquezas não têm nenhum poder ou realidade independente; que mesmo a riqueza, como toda a criação, é, em última análise, atribuível ao grande e santo Deus. Ele é aquele que ". . . tudo nos proporciona ricamente para nosso aprazimento" (1 Timóteo 6:17) e enche os nossos "corações de fartura e de alegria" (Atos 14:17). Ele é mais do que isso. Ele é o doador de "Toda boa dádiva e todo dom perfeito" (Tiago 1:17). Em Cristo, habita "a plenitude da divindade," ele nos aperfeiçoou (Colossenses 2:9-10). Nossa fascinação pelo dinheiro é justamente outro caso em que precisamos evitar a loucura dos antigos gentios que "... mudaram a verdade de Deus em mentira, adorando e servindo a criatura em lugar do Criador, o qual é bendito eternamente" (Romanos 1:25).


36. O Mundanismo da Preocupação

Ansiedade por coisas e circunstâncias é uma fraqueza da qual nos rimos. Ela parece uma coisa tão própria da criatura, um exercício eminentemente humano. Mas Jesus não trata ligeiramente dessa ansiedade. A preocupação é vista, na perspectiva divina, como uma forma sutil, mas real, de mundanismo e o Senhor a trata sob o título de materialismo. Algumas pessoas aspiram a ter riqueza, enquanto outras estão sob o terror da pobreza. Ambos os grupos são igualmente ocupados com coisas. Em Mateus 6:25-34, Jesus adverte seus discípulos que a ansiedade por coisas representa tão grande ameaça à devoção a Deus de todo o coração quanto a cobiça (veja Lucas 12:13-31, onde o Senhor de novo associa as duas). Este é um fato com o qual muitos de nós tardamos em tratar. Temos vivido muito comodamente com ataques regulares de histeria por suspeita de alguma futura privação. Aos nossos temores, como efetivamente às nossas paixões, tem sido permitido consumir nossas energias, dominar nossas vidas e furtar nossos corações. Satanás pouco se interessa se estamos consumidos pela ganância ou obsessos pela preocupação, desde que nossas mentes estejam postas em coisas, em vez de em Deus. As conseqüências de tal mundana ansiedade não são só espiritualmente lamentáveis, elas podem ser fatais.

"Por isso vos digo: Não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber" (Mateus 6:25). Três vezes, nesta parte do Sermão, Jesus ordena aos seus ouvintes que não estejam aflitos e preocupados pelas coisas necessárias a sustentar sua vida presente: alimento, bebida e roupas (6:25,31,34). Sua advertência, tornada mais urgente pela repetição, tem a intenção de alertar-nos contra o perigo real que uma impaciência demasiada sobre as "necessidades da vida" representa para nós. O "por isso" do Senhor, no versículo 25, torna claro que ele está continuando a tratar do tema "Deus X coisas", e que as instruções que se seguem se apoiam sobre a verdade que os homens não podem servir a Deus aceitavelmente, com um coração dividido (6:24). Por esta razão, torna-se ainda mais interessante notar que a palavra grega (merimnate) traduzida como "andeis ansiosos" vem de uma raiz (meridzo) que sugere ser puxado em duas direções, distraído, e, portanto, ansioso, perturbado. Lucas usa esta mesma palavra para relatar a descrição de Jesus do estado da alma de Marta, quando muito ocupada com seus deveres na cozinha (10:41), e Mateus a usa quando registrando a explicação do Senhor do terreno espinhoso, na parábola do Semeador, como aqueles cujas vidas tenham sido afogadas "pelos cuidados [merimna] do mundo" (13:22). Deus e sua vontade são inevitavelmente retirados do coração daqueles que vivem em constante temor de que possam a qualquer momento ser privados das necessidades da vida.

Temos ainda que entender que, como em sua advertência sobre a acumulação dos bens deste mundo, Jesus pretende, por sua proibição da ansiedade, levantar a questão sobre onde deve ser posta a confiança de uma pessoa, e não, proibir um esforço consciente para ganhar a vida. Trabalhar como um meio de ganhar o sustento não só é tolerado pelas Escrituras, é ordenado (Efésios 4:28) e os preguiçosos não são tratados gentilmente (Provérbios 6:6-11; 24:30-34; Eclesiastes 4:5). Não há nada espiritual com a indolência. "Se alguém não quer trabalhar", escreveu Paulo, "também não coma" (2 Tessalonicenses 3:10). Esta advertência, então, não é dirigida ao previdente cuidado de um marido ou pai consciencioso em prover para as futuras necessidades de sua família (1 Timóteo 5:8; 2 Coríntios 12:14). Não há, certamente, intenção de desaprovar a carga do cuidado que o cristão sente por seus irmãos (2 Coríntios 12:25; 11:28; Filipenses 2:20) ou pelas "cousas do Senhor" (1 Coríntios 7:32). O que o Senhor atinge aqui é o investimento dos cuidados primários de uma pessoa em como se manter respirando e os insensatos temores associados com isso.

Que Jesus está primariamente interessado com a escolha entre o mundo e o reino é evidenciado pelo contexto global de sua advertência sobre a preocupação. O pensamento que começa com "Não andeis ansiosos pela vossa vida", no versículo 25, não é completado antes do versículo 33: "Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino . . ." Esta é a mesma construção "não . . . mas . . ." que o Senhor usou em João 6:27, quando insistindo no mesmo ponto: "Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna . . ." Aqui, como em Mateus, a intenção do grande Mestre não é exigir absoluta abstenção de uma e a exclusiva busca da outra. Ele está simplesmente nos desafiando a decidir o que terá o lugar mais alto em nossos corações: comida, bebida e vestimenta ou a justiça do governo do céu, ou seja, o que perece ou o que permanece. Deus tem que ser sempre o primeiro amor daqueles que escolhem o segundo.

Até aqui, neste sermão, Jesus tem deixado claro que podemos perder a eternidade pela avareza, ou podemos ser privados dela pelo temor ansioso. Dada a conseqüência de ambos, um desses caminhos parece tão repreensível quanto o outro.


37. Lições dos Pássaros e das Flores

Em Mateus 6:25, Jesus emite sua advertência sobre uma ansiedade insensata pelas necessidades da vida, o sombrio temor de que Deus possa não prover o que nós, em nossa fraqueza, não podemos prover por nós mesmos. Ele continua sua advertência com uma série de argumentos que tornam claro que nossa incessante aflição por necessidades e circunstâncias futuras marcham em sentido contrário ao da própria natureza de Deus e de seu evangelho e é, conseqüentemente, desnecessária, inútil e insidiosamente destrutiva da fé (6:25-30).

Não se discute que os homens sejam criaturas frágeis e dependentes. Se determinamos encarar a vida por nossa conta, temos a maior causa de ansiedade, o rico como o pobre. O século XX não mudou isso. Nem a riqueza, nem os programas do governo são defesas contra a privação. As fortunas se perdem, os governos caem, e as circunstâncias mudam com regularidade perturbadora. Os favoritos de hoje são os rejeitados de amanhã. Não é, portanto, motivo de surpresa que o mundo dos homens impenitentes seja uma estremecida massa de temor ansioso e trêmulo.

Mas, que tal aqueles que são cidadãos no reino de Deus? É concebível que eles, também, sejam destroçados pelo mesmo constante medo de calamidade futura? E se assim for, o que isto diz sobre a certeza das promessas de Deus ou a constância de seu amor? Os cristãos devem ser, na terra, as pessoas mais positivas e confiantes no futuro. E isto não é mero exercício de psicologia, a farsa radiante e sem fundamento dos secularistas tentando mostrar uma fachada de coragem. O otimismo dos cristãos repousa solidamente no amor de Deus, um amor já maravilhosamente manifestado no mundo. Jesus fala de algumas destas evidências em seus argumentos contra a ansiedade.

"Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?" (Mateus 6:25b). A palavra traduzida como "vida" ("psuche", freqüentemente traduzida como "alma") se refere aqui à vida natural do homem e não à sua natureza espiritual, mais alta. Isto se evidencia pelo uso paralelo de "corpo". O Senhor começa ao nível do chão, com o argumento da criação, um argumento do maior para o menor. O próprio fato de estarmos vivos, ele diz, reflete a vontade divina. Por que o Criador nos daria vida, só para nos matar de fome? Se ele nos deu o dom maior da vida, por que ele retiraria os benefícios menores, necessários a mantê-la? Não podemos confiar naquele que nos deu vida para nos dar alimentos? Nossas vidas não são um golpe de sorte, e sua continuação não é dependente de um acaso cego. Fomos criados à imagem de Deus para propósitos que ele seguramente mostrará, por sua fiel providência. Qual é o nosso problema? Esquecemos a maravilha de nossas origens e, portanto, caímos no ceticismo sobre nosso futuro.

"Observai as aves do céu . . ." (Mateus 6:26). "Considerai os lírios do campo . . ." (Mateus 6:28-30). Nestes dois apelos, Jesus recorre, novamente, à natureza das coisas, mas agora argumenta do menor para o maior. Olhai ponderadamente (emblepsate), ele insiste, para o tipo da rica provisão que Deus faz para algumas das suas criaturas mais humildes, os pássaros, e perguntem-se quão rico e pleno mesmo será seu cuidado com aqueles que, não somente foram feitos à sua imagem, mas que se tornaram pela sua graça algo ainda mais notável: seus filhos. Aprendei a lição (katamathete) dos "lírios", ele continua. Note como estas flores do campo, silvestres e incultas, florescem pela simples providência de Deus, e ainda são mais suntuosamente vestidas do que Salomão, em seu mais grandioso dia. Se Deus cobre com tal beleza a efêmera relva do campo, como supõe você que ele vestirá aqueles cujo destino é a eternidade? Por que, então, Jesus pergunta, fazemos de nosso esforço para ganhar as provisões da vida uma luta tão agoniada, uma luta que termina consumindo toda a nossa personalidade? E a sua resposta é: porque nossa fé é muito pequena; porque temos tão pouca confiança em Deus (versículo 30).

"Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida?" (Mateus 6:27). No meio de nos ajudar a vermos a razão pela qual nossa relação especial com Deus deveria dar-nos grande segurança do futuro, o Senhor faz uma pergunta calculada para mostrar o absurdo absoluto e a futilidade de sermos impacientes com coisas que não temos poder para mudar. Precisamos fazer o que podemos. Os pássaros são incapazes de trabalhar nos campos e os lírios de costurar, mas nós somos capazes de dar alguma contribuição para nossas necessidades. Mas há limites, e não faz sentido para nós gastar nossas energias e sobrecarregar nossas emoções, quando já fizemos tudo o que está dentro de nosso controle. Muitas vezes, nossos temores são de catástrofes imaginárias, mas mesmo quando a fonte de nosso medo é real, toda a nossa agitação não adianta nada contra as coisas que não podemos mudar e serve apenas para incapacitar-nos para o bem que, de outro modo, poderíamos fazer. Como no caso dos pássaros e dos lírios, Deus cuidará do que não podemos cuidar.

A questão que precisa nos tocar no meio de nossa ansiedade pelo futuro é sugerida na triunfante afirmação de Paulo em Romanos: "Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou a seu próprio Filho, antes, por todos nós o entregou, porventura não nos dará graciosamente com ele todas as cousas?" (8:31-32). As pessoas que são dominadas por ansioso temor sobre o que vão comer, beber e vestir crêem realmente que Jesus morreu por seus pecados? "Ó homem de pequena fé!"


38. Uma Fé Muito Pequena

Jesus, tendo feito seu apelo racional contra os temores mundanos, repete com insistência, a advertência com que ele começou: "Portanto, não vos inquieteis . . ." (Mateus 6:31). Então, ele acrescenta uma última e eficaz observação:

"Porque os gentios é que procuram todas estas cousas" (Mateus 6:32). As referências de Jesus aos "gentios" ou às "nações", no Sermão da Montanha, não falam tanto à raça deles quanto a sua ignorância espiritual, falam sobre aqueles que não conhecem a Deus. Avançando mais nesta direção, os apóstolos Paulo, Pedro e João, mesmo ao escrever a discípulos que não eram judeus, referem-se aos descrentes geralmente como "gentios" (1 Coríntios 5:1; 1 Tessalonicenses 4:5; 1 Pedro 2:12; 4:3; 3 João 7; Apocalipse 11:2).

Como ele havia feito antes (Mateus 5:47; 6:7), Jesus repreende seus ouvintes por serem nada melhores em seu comportamento do que os ateus. Ele não descreve os gentios como "ansiosos" sobre alimento e vestes, mas diz que eles "procuram" por estas coisas. Que as duas expressões significam o mesmo, torna-se evidente pelo seu uso intercambiável num ensinamento similar do Senhor, em Lucas 12:22,29. Por ambos os termos, Jesus não quer dizer só "preocupação", mas a máxima preocupação. Os gentios, em suas trevas, tinham o alimento e as vestes como seu interesse supremo. Este interesse dominava e comandava suas vidas. Nada sabendo de um Deus de graça, benevolente, eles viam a vida como um assunto de acaso cego ou de fatalidade inalterável. Sua ansiedade por coisas era completamente consistente com sua visão do mundo. Que mais havia? Mas que cristãos não encontrassem mais paz de espírito do que aqueles que estavam sem "esperança e sem Deus no mundo", era tanto impensável como vergonhoso.

Há um sentido em que todos os homens, até o mais ímpio, são mais importantes para o Todo-poderoso do que pássaros e flores, mas Jesus não está se dirigindo a eles aqui. Ele está falando somente àqueles que são filhos de Deus, não meramente pela criação, mas pela redenção. E então ele está dizendo: "Vocês são o próprio povo de Deus. Como podem estar tão ansiosos e perturbados?"

"Fé", no reino de Deus, é muito mais do que um vago princípio. É uma força ativa, prática, que afeta toda a vida. "Pouca fé" é uma fé que não foi cuidadosamente cogitada e aplicada. A história dos Doze e seu relacionamento com Jesus é uma história do crescimento de uma muito pequena fé. A princípio, quando eles começaram a segui-lo, eles tinham confessado livremente e entusiasticamente que ele era o Cristo, o Filho de Deus (João 1:41,45,49), mas é evidente, por eventos mais tarde, que as implicações desse fato não tinham despontado plenamente neles. Isto é dramaticamente ilustrado pelo terror que se apossou deles quando uma súbita tempestade no Mar da Galiléia ameaçou virar o barco. Eles já tinham estado com ele por mais de um ano. Eles o tinham observado tornar a água em vinho, em Caná; tinham visto Jesus devolver o filho morto revivido aos braços de sua mãe viúva, em Naim; experimentaram a miraculosa pesca nas águas junto a Cafarnaum; mas se eles pensaram em tais coisas no meio da agitação de seu barco, isso não serviu para acalmar seu crescente pânico. Pense nisto: Aquele que fez o céu e a terra está dormindo aos pés deles e eles estão com medo de se afogarem!

Mais tarde, quando a mera palavra do Senhor tinha acalmado a tempestade, os doze ficaram maravilhados "Quem é este que até os ventos e o mar lhe obedecem?" (Mateus 8:23-27). Ele era mesmo como o tinham confessado: o Filho de Deus; mas eles estavam ainda aprendendo o que isso significava. E assim também é, freqüentemente, conosco. Confessamos que ele é o Rei da Glória, e de fato, de algum modo, acreditamos, mas isso ainda não chegou a influenciar nosso pensamento sobre a totalidade da vida. E assim, para nós como para eles, ele tem que dizer, reprovando-nos: "Ó vós de pouca fé".

Mas em qual situação nossa fé é tão pequena? Eis a questão. Muito pequena para dar-nos conforto no tempo do sofrimento. Muito pequena para dar-nos coragem em face da provação? Ou, ainda mais comovente, muito pequena para nos salvar para o céu? Quão pequena é esta fé que vive em temerosa ansiedade pelas coisas? Ela tem que ser pequena, mesmo, pois Jesus uma vez disse a seus discípulos repreendidos: "Se tiverdes fé como um grão de mostarda . . . nada vos será impossível" (Mateus 17:20). É muito o interesse do Senhor com nossos modos ansiosos. Ele não está apenas dando conselho prudente; ele está emitindo uma ordem sobre a qual gira nosso relacionamento com o reino de Deus. Encarar este fato honestamente pode servir, às vezes, para encher-nos de desespero. Estamos tão dispostos ao temor crônico e, tanto quanto chegarmos a odiá-lo, nossa luta com nossos temores parece sempre ser mais uma longa, persistente guerra de desgaste do que um rápido, decisivo combate. Compartilhamos a angústia de um pai sofredor que, meio duvidoso, trouxe seu filho atormentado para que Jesus o curasse. "Eu creio", ele implorou, "ajuda-me na minha falta de fé" (Marcos 9:24). Será de ajuda para nós se percebermos que a liberdade do temor para a qual Jesus nos chama é uma lição que aprendemos com o tempo, pela longa prática, lembrando-nos vezes seguidas do que a cruz diz sobre a fidelidade constante do amor de nosso Pai e piedosamente levando nossos pensamentos sobrecarregados a ele (Filipenses 4:6). Finalmente, como nosso irmão Paulo antes de nós, "aprenderemos" (4:11-12) e seremos mantidos no inexpugnável abrigo da paz de Deus (4:7). "Não andeis ansiosos", ele nos disse. Em resposta, digamos: "Não estaremos ansiosos". Seja forte e persevere. Lembre-se: a fé pode crescer.


39. Deus Acima de Tudo

"Buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça . . ." (Mateus 6:33). Esta ordem final é o complemento positivo das advertências anteriores de Jesus, contra uma inquietação perturbada e excessiva com as coisas (6:25,28,31). Agora, pela última vez e da maneira mais clara, o Filho de Deus declara o que tem que ser a paixão dominante de cada cristão. Não há nela nenhuma surpresa para os que têm estado ouvindo. O sentimento desta sentença representa o tema dominante do Sermão, um tema que emergiu repetidamente (5:6,16,48; 6:20). O verdadeiro servo de Deus tem que procurar seu reino e sua justiça acima de tudo. É somente Deus quem merece e ordena nossa ambição e interesse total. É no seu reino que devemos entregar nossos corações, incondicionalmente. É em sua justiça que devemos despender nossas energias, sem restrição. Aqui jaz a chave que abre todas as portas, o tesouro que atende a todas as necessidades.

"Seu reino", neste texto, não se refere à soberania geral de Deus, na criação e na História, mas a seu específico domínio sobre o seu povo remido. E mais, não se refere tanto ao povo que se submete a este domínio (a igreja), como ao reino em si. Entender este forte apelo como um chamado à absoluta lealdade à igreja como uma instituição seria uma trágica desorientação. Ele é simplesmente uma intimação aos homens para que aceitem a vontade de Deus como o supremo bem.

Aqueles, cujas especulações milenaristas os levam a ver nas palavras de Jesus uma referência a algum reino apocalíptico futuro, deixaram de ver que a ênfase não está no que Deus fará acontecer no futuro, mas no que os homens têm que fazer em resposta ao que Deus já fez e está fazendo. O Senhor está fazendo um chamado ao dever presente, e não a uma mera antecipação passiva. Não questionamos que o "reino" possa abranger o reino de Deus em seu Filho, desde a ascensão até o julgamento, mas eventos futuros não parecem ser o principal cuidado do Senhor em Mateus 6:33.

Uma vez que o reino, nesta passagem, está se referindo ao domínio soberano de Deus sobre seu povo, o que temos que "procurar" é a submissão de nossas vontades a vontade dele. Cada pensamento tem que ser levado "cativo . . . à obediência de Cristo" (2 Coríntios 10:5). A ênfase, parece-me, não é tanto temporal ("espere para a inauguração do reino") como moral ("prepare seu coração para receber o domínio do Ungido de Deus").

E por que Jesus acrescentou "e sua justiça?" Isto avança seu pensamento ou simplesmente o repete? Pareceria haver pouca diferença entre o reino de Deus e a justiça, à qual este reino chama todos os homens. Mas alguma distinção pode existir. A "justiça" do Sermão da Montanha não é a justificação pela fé, ainda que a salvação pela graça esteja implícita em toda a estrutura do sermão. Como o contexto demonstra, esta "justiça" é a justiça de uma vida mudada. É a justiça prática de um verdadeiro amor aos outros (5:20-48) e um coração singelo para com Deus (6:1-18). O reino do céu pretende produzir, não somente um novo relacionamento com Deus, mas uma vida nova e transformada também. A procura para esse reino não será superficial nem estreita. Ela afetará profundamente cada faceta de nossas vidas: casamento, lar, família, profissão, finanças, estilo de vida, ad infinitum. O Senhor nos tomou até o ponto central, em sua instrução. Como John R. W. Stott o resume: "Então, justo como Jesus já nos chamou no Sermão para uma maior justiça, um amor mais amplo e uma piedade mais profunda, ele agora nos chama para uma ambição mais alta" (Christian Counter Culture, pág. 169).

". . . e todas estas cousas vos serão acrescentadas" (Mateus 6:33b). Enquanto atrai seus ouvintes para uma meta mais elevada, Jesus não descarta o cuidado com o alimento e o abrigo, como sendo sem mérito. Ele, simplesmente, nos diz que se queremos segurança "destas coisas", teremos que deixar de procurá-las e buscar Deus. Se procurarmos o presente, perderemos ambos, ele e a eternidade. Se procurarmos o céu, a terra será recebida também. Não podemos orar por nosso pão do dia-a-dia enquanto não tivermos buscado primeiramente a glória de Deus e sua vontade, ainda mais diligentemente.

Há um princípio muito importante envolvido neste relacionamento do pão e do reino. Se nos entregarmos absolutamente à perseguição de coisas materiais, isso servirá para corromper todas as outras ambições. Se, contudo, buscamos primeiro o reino de Deus, todas as outras aspirações são realçadas e enobrecidas porque elas são sempre feitas para servir a um fim mais alto. A vida pode parecer que apresenta-nos uma quase infindável variedade de opções mas, no fim, só há duas. Ou servimos o céu, ou servimos a nós mesmos. Isto esgota as alternativas. O Sermão do Monte é muito claro a respeito disso.


40. "Não Julgueis, para que não Sejais Julgados"

Muitos comentadores têm achado Mateus 7:1-12 uma passagem desafiadora, difícil de ajustar dentro da estrutura do resto do Sermão. Ela parece, ao primeiro exame, consistir de três parágrafos independentes, sem um tema comum. Isto fez com que alguns presumissem que eles tivessem sido enunciados em outras ocasiões e, arbitrariamente, incluídos aqui. Esta é uma solução desnecessariamente radical que só serve para lançar dúvida na exatidão do relato de Mateus.

O que estes ensinamentos, aparentemente não relacionados, podem ter em comum é que provêm alguns avisos necessários a ponderar a instrução anterior de Jesus. Se correto, o sentido das palavras admonitórias finais do Senhor seria algo como isto:

Nosso próprio acurado entendimento da justiça do reino não deverá produzir em nós um espírito de julgamento áspero e reprovador contra aqueles que estão tendo uma luta em servir a Cristo. Os homens precisam ser ajudados a ver a natureza da verdadeira justiça, mas não por um descuidado e convencido hipócrita que está mais preocupado com os pecados alheios do que com os próprios. Se o Sermão for aplicado primeiro em casa, facilmente encontraremos a compaixão e a humildade para tratar dos pecados alheios (7:1-5).

A partilha do evangelho do reino é um trabalho absolutamente vital, mas precisamos estar avisados a não desperdiçar nosso tempo com aqueles que não têm nenhum interesse nele. O reino de Deus não é propagado por um cego fanatismo mais do que pelo exercício de uma árida crítica. O filho do reino está em busca daqueles cuja atitude torna-os maduros para receber as boas novas da redenção, e não de homens e mulheres cujo orgulho impossibilita-os de ouvir e entender (7:6).

E finalmente, o reino não é obtido por esforços heróicos e meritórias realizações, mas simplesmente por pedi-lo com seriedade. O reino é uma dádiva do amor de Deus (7:7-12).

"Não julgueis, para que não sejais julgados" (Mateus 7:1-2). A palavra grega krinete, aqui traduzida como "julgar", pode conter, tanto no grego como no português, uma extensa escala de significados, desde discernimento até condenação. O contexto aponta claramente para este último sentido. Nem o exercício de uma judiciosa discriminação (exigida claramente por 7:6,15-20), nem a existência de tribunais de justiça estão sendo proibidos. É um espírito condenatório sem misericórdia que Jesus rejeita. Isto é corroborado pelo material paralelo em Lucas, onde a advertência contra o julgar os outros é precedida pela positiva "Sede misericordiosos, como também misericordioso é vosso Pai" (6:36). Nesta admoestação, Jesus volta ao tema do amor fraternal, que atingiu o clímax em Mateus 5:43-48. No relato de Lucas do Sermão, os dois trechos são imediatamente juntados (6:27-38). O ponto de nosso Senhor é que pessoas tão necessitadas de misericórdia não têm nenhum direito para ser tão sem misericórdia com os outros. Esta advertência é apenas a face oposta de sua promessa anterior, que aqueles que mostram misericórdia receberão misericórdia (Mateus 5:7) e aqueles que perdoam serão perdoados (Mateus 6:12). Aqueles que condenam outros sem compaixão ou intento redentor podem esperar o mesmo tratamento nas mãos de Deus, uma expectativa que causa calafrio.

"Porquê vês tu o argueiro no olho de teu irmão, porém não reparas na trave que está no teu próprio?" (Mateus 7:3-5). Porque o tipo de julgamento em discussão é sem amor e egoísta, ele é freqüentemente acompanhado de hipocrisia. Por esta razão, Jesus pinta o quadro patético e humorístico de um homem tentando extrair um grão de areia do olho de outro, enquanto uma trave está saliente no seu. Espiritualmente falando, há uma grande quantidade destes cegos oculistas que estão muito preocupados em ver as faltas dos outros e estão esquecidos da enormidade das próprias. Afortunadamente, uma séria atenção com nossos próprios erros tem o efeito de nos equipar com humildade suficiente para tratar paciente e habilmente com os pecados alheios (Gálatas 6:1-3; Tito 3:2-3).

A maior dificuldade prática que se prende a este familiar conjunto de versículos é a idéia popular de que ele quase proibe toda forma de reprovação, seja qual for o motivo. O largo contexto do Novo Testamento torna impossível este entendimento. O ensinamento de Jesus contém muita repreensão (por exemplo, Mateus 23 e o texto presente), entretanto, nunca áspera ou severa. Como o próprio Senhor observou, "Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele" (João 3:17). E esta é a chave. Não é a reprovação amorosa e que resgata que o Senhor rejeita aqui, mas os ataques sem amor que servem somente para alimentar o ego do "juiz."

O evangelho da graça não pode ser pregado sem convencer os homens do pecado (João 16:8) e chamá-los a mudar o coração (Lucas 24:47; Atos 2:38; 3:19; 17:30). Mesmo as almas do povo redimido de Deus não podem ser protegidas sem se admoestar os insubmissos (1 Tessalonicenses 5:14) e procurar converter "o pecador do seu caminho errado" (Tiago 5:19-20). Mas tal correção é oferecida com amor que redime, não como o veículo do orgulho e da ira. A justiça do reino adverte, mas não ataca. Os cidadãos do reino de Deus, lutando com seus pecados e assediados por fraquezas, necessitam de um irmão e não de um "juiz". Em todos os nossos tratos com outros, precisamos lembrar que não somos agentes do julgamento do Senhor, mas de sua salvação. A vingança pertence ao Senhor. Nossa tarefa é buscar e salvar o perdido.


ESTUDOS BÍBLICOS       PESQUISAR NO SITE       MENSAGENS EM ÁUDIO      MENSAGENS EM VÍDEO     

ESTUDOS TEXTUAIS      ANDANDO NA VERDADE     O QUE ESTÁ ESCRITO?      O QUE A BIBLIA DIZ?

 

O Que Esta Escrito?
 
©1994, ©1995, ©1996, ©1997, ©1998, ©1999, ©2000, ©2001, ©2002, ©2003, ©2004, ©2005, ©2006, ©2007, ©2008, ©2009
 Redator: Dennis Allan, C.P. 60804, São Paulo, SP, 05786-970.

Andando na Verdade
©1999, ©2000, ©2001, ©2002, ©2003, ©2004, ©2005, ©2006, ©2007, ©2008
Redator: Dennis Allan, C.P. 60804, São Paulo, SP, 05786-970

Todos os artigos no site usados com permissão dos seus autores e editoras, que retêm direitos autorais sobre seu próprio trabalho. / 
All of the articles on this site are used with permission of their authors and publishers, who retain rights of use and copyright control over their own work.

Estudos Bíblicos
estudosdabiblia.net
©1995-2015 Karl Hennecke, USA