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11. A Verdadeira Justiça

"Ouvistes . . . eu, porém, vos digo" (Mateus 5:21-22). Com este tão repetido contraste batendo uma forte cadência, Jesus abre o coração do seu discurso sobre a verdadeira justiça. Mas não foi um sermão pregado no vazio. O problema da justiça farisaica tinha sido levantado abertamente e agora este pernicioso sistema será destruído metodicamente pelas penetrantes e autoritárias observações do Senhor. Não foi demasiada devoção à lei que provocou o devastador ataque de Jesus aos fariseus, mas pouca devoção. Com hipocrisia arrogante eles haviam produzido uma paródia vazia da lei de Deus. Jesus rejeita essa ilusão e a expõe tal como é, à luz da verdadeira e imutável justiça de Deus.

Se, como alguns supõem, Jesus estava, aqui, citando as Escrituras do Velho Testamento, ele fez uma abordagem diferente da que usou nas outras vezes. Em nenhuma outra ocasião ele apresenta as Escrituras com "Ouvistes o que foi dito aos antigos". Antes, quando foi tentado por Satanás no deserto, Jesus apresentou três passagens do Deuteronômio, com as palavras "está escrito" (Mateus 4:5,7,10). Ele usou a mesma forma em Mateus 11:10 e 21:13. Em outras instâncias o Senhor indicou o escritor que ele estava citando (Mateus 12:17; 13:14,35; 15:7; 21:4; 22:43) ou simplesmente citou "as escrituras" (21:42). O tratamento diferente em Mateus 5:21-48 é muito marcante para ser ignorado. Aqui Jesus está citando, não as Escrituras, mas "a tradição dos antigos" (Marcos 7:5).

O contexto desta parte do sermão do Senhor aponta na mesma direção. Jesus insistiu em expressar sua reverência pela lei e os profetas (5:17-19). É razoável pensar que ele se voltaria para desfechar um ataque fulminante contra aquela lei? A preocupação imediata do pregador, quando ele começa esta parte do seu discurso, é a falsa justiça dos fariseus (verso 20) e este é o problema com o qual ele lida nos versículos subseqüentes (21-48).

O contraste sendo traçado nesses versículos não é entre a lei de Moisés e a lei de Cristo. É, antes, um contraste entre a corrupção farisaica do Velho Testamento e a verdadeira justiça que foi antecipada na lei e levada à sua plenitude em Cristo. Como observamos antes, os ensinamentos éticos de Jesus não representam um afastamento radical da ética do Velho Testamento. Os mandamentos funda-mentais da lei, amar a Deus supremamente e o próximo como a si mesmo (Deuteronômio 6:5; Levítico 19:18), são tomados pelo Senhor como o baluarte de seus próprios ensinamentos (Mateus 7:12; 22:34-40). Os princípios éticos do Velho Testamento não eram ordenações superficiais que governaram o músculo mas não a mente. O décimo mandamento do Decálogo apresenta-se diretamente à mente e ao coração (Êxodo 20:17). E quem poderia ler esta velha aliança judaica e imaginar que o Deus que falou no monte Sinai haveria de permitir a seu povo odiar, desde que não matasse, ou a concupiscência, desde que não consumada? Se foi ele que disse "Não aborrecerás teu irmão no seu íntimo" (Levítico 19:17) e "Não cobiçarás a mulher do teu próximo (Deuteronômio 5:21).

A lei de Moisés, em sua essência, refletia as verdadeiras exigências éticas de Deus. Enquanto é verdade que a lei fez concessões à "dureza de coração" de Israel (Mateus 19:8; Marcos 10:5) e conteve muitas "ordenanças da carne" (Hebreus 9:10), mesmo assim, em seu coração, como Paulo afirmou, "a lei é espiritual" (Romanos 7:14) "e o mandamento, santo e justo e bom" (Romanos 7:12).

As exigências éticas do Sermão da Montanha são, simplesmente, a flor que desabrochou do botão do Velho Testamento. Enquanto é verdade que a graça e a plenitude da verdade vieram por meio de Jesus Cristo (João 1:17), é também certo que havia verdade ética e espiritual na lei e uma clara antecipação da graça por vir (Gálatas 3:8).

Então, se é acurado dizer que Jesus está expondo as perversões farisaicas da lei, não é acurado dizer que Jesus não faz mais do que dar uma correta exposição da ética do Velho Testamento. Jesus ancora, nitidamente, seu ensinamento ético na ética da lei, mas não se detém aí. Ele prossegue, para expandi-la na lei do reino do céu.

O alvo do reino é a justiça de Deus (Mateus 5:48; 6:33). Com o propósito de conduzir seus ouvintes a um entendimento desta ordem moral e espiritual das coisas, Jesus começa com os mais óbvios imperativos morais do que significa amar aos outros (5:21-48). Há um plano ascendente nestes versículos. O Senhor começa numa nota negativa: com a proibição que mais se recomenda aos homens, mesmo nas mais baixas condições: "Não matarás." Quando o capítulo termina, ele alçou à mais positiva e desafiadora exigência do amor, não o amor como os homens o conhecem, mas o amor como Deus, em sua santa perfeição, o demonstra.

Estes versículos não são confortáveis de ler e são, freqüentemente, desafiantes ao entendimento, mas o estudante tem sempre que ter em mente que, abaixo de todas essas instruções, está o segundo dos grandes mandamentos, "Amarás o teu próximo como a ti mesmo." Em termos tanto prático como objetivo estamos agora para ser confrontados com o que significa ser um cidadão do reino do céu.


12. "Todo Aquele que se Irar Contra seu Irmão . . ."

Esta parte do sermão (Mateus 5:21-48) começa com uma consideração de como o cidadão do reino tem que lidar com sua própria inclinação para o mal e, então, fecha (versículos 38-48) com um estudo de como ele tem que enfrentar o mal dos outros.

Há, nestas passagens, a descrição de um tipo radical de amor. Se ela nos surpreende, a nós que estamos deste lado da cruz, que tranco ela deve ter dado naqueles que a ouviram pela primeira vez antes dos impensáveis eventos do Calvário! Ainda que só antecipado no proeminente discurso de Jesus, parece evidente que o radical amor de Deus pelos homens, em Cristo, haveria de ser o fundamento indispensável para uma tão santa e desinteressada devoção pelos outros. Como a mulher cuja pródiga expressão de amor chocou o anfitrião fariseu do Senhor (Lucas 7:36-50), amamos muito porque fomos muito perdoados. O amor radical de Deus por nós libera dentro de nós uma capacidade radical de boa vontade para com os outros. E a natureza desse amor, como o de nosso Senhor, deve ser sacrifical (Mateus 16:24-25). Como Jesus se esgotou por nós, assim temos que esgotar-nos por outros (Filipenses 2:1-8).

Mas por que todos estes pormenores? Por que não emitir a simples instrução para amar o próximo como a si mesmo, e pronto? Porque todos somos demais carecidos de entendimento de nossos próprios maiores interesses e, conseqüentemente, os dos outros. Um bêbedo, praticando o "amor ao próximo", poderia dar ao seu companheiro beberrão mais trago de uísque. Thomas Harris levanta este problema, muito diferentemente, em seu livro Eu Estou Ótimo, Você Está Ótimo: "A Regra de Ouro não é um guia adequado, não porque o ideal seja errado, mas porque muitas pessoas não têm dados suficientes sobre o que eles querem para si, ou porque o querem." Os dados faltantes são providos pelos ensinamentos de Cristo e seus apóstolos. Suas instruções preenchem os detalhes práticos do que significa amar a Deus e trabalhar pelo real e melhor interesse das outras pessoas. Estas informações não provêm de nossos desorientados desejos e julgamentos, como Harris e os adherentes da filosofia da "ética da situação" sugerem, mas da divina sabedoria de Deus. Não pode ser de outro modo. De nosso bem restrito ponto de vista humano, é nitidamente impossível conhecer todas as implicações de nosso comportamento, ainda mesmo quando bem intencionado. Deus informa e guia nosso amor com sua instrução moral. Como João observa: "Nisto conhecemos que amamos os filhos de Deus, quando amamos a Deus e praticamos os seus mandamentos" (1 João 5:2).

Os fariseus estavam sempre inclinados a abaixar o nível moral e espiritual da lei e a aumentar a exigência cerimonial. Jesus começa este trecho com perfeito exemplo da tendência farisaica a reduzir a lei. "Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento" (5:21). A perturbadora coisa a respeito destas citações é que, às vezes, parecem exatas citações da lei. "Não matarás" sai diretamente de Êxodo 20:13 e Deuteronômio 5:17. O "julgamento", da segunda citação, se refere ao conselho local ou tribunal e, ainda que a citação não seja uma citação exata da lei, ela reflete acuradamente as palavras de Números 35:30-31. E contudo, nas mãos dos fariseus, estas palavras não eram a lei, mas idéias tiradas da lei e pervertidas. A preocupação dos pelegos da instituição era que ninguém poderia cometer um ato que derrubasse uma penalidade civil. Os únicos crimes que perturbavam a consciência deles eram aqueles que podiam ser tratados por tribunais humanos. Eles estavam profundamente perturbados pelo homicídio, mas ódio e malícia não lhes causavam nenhuma consternação séria. Abusivas como fossem suas maneiras para com os outros, desde que não houvesse culpa por sangue, eles se sentiam justos perante a lei.

A resposta de Jesus (5:22) se acomoda com a fixação deles nas penalidades civis. A verdade é, ele diz, que o homem que abriga ira contra seu irmão está em perigo do tribunal local. João, mais tarde, refletiu este conceito em sua memorável afirmação: "Todo aquele que odeia a seu irmão é assassino" (1 João 3:15).

Tendo abordado o problema do coração, Jesus estende sua aplicação à língua. Não somente os amargos sentimentos põem a pessoa em perigo, mas assim também o faz o abuso desdenhoso que eles estão dispostos a promover. Quantos corações têm sido brutalizados por palavras que cortam como floretes! Às vezes, o assassinato seria mais humano do que essas atrocidades verbais! Atacamos as pessoas com o máximo desdém e as deixamos, como pretendíamos, prostradas. Para isto, o Senhor advertiu, ficaremos "sujeito a julgamento do tribunal" (uma provável referência ao Sinédrio) ou, mais corretamente, "ao inferno de fogo." É evidente que o uso que o Senhor faz aqui de "julgamento" e "conselho" é uma acomodação. As cortes civis não podem tratar de pensamentos perversos, mas o tribunal a que Jesus se refere pode lançar o infrator no inferno (Mateus 10:28).

Nossa reação juvenil a este ensinamento nos dispôs a chamarmos um homem de qualquer coisa exceto sensato, e a evitar chamá-lo de "tolo", a todo custo. Os fariseus haveriam de apreciar muito esta interpretação!

O problema do assassinato tem que ser atacado na fonte. Tanto o coração, como a língua, bem como a mão, tem que ser lavados da brutalidade do ódio. A lei ensinou isto (Levítico 19:17), mas os fariseus, na sua ânsia de obter justiça barata, conseguiram negligenciar. O Senhor não pretende que esqueçamos.


13. "Vai Primeiro Reconciliar-te com teu Irmão"

"Vai primeiro reconciliar-te com teu irmão" (Mateus 5:24). Jesus começou este trecho de seu sermão com uma série de advertências sobre o julgamento severo destinado a cair sobre aqueles que permitem que sua ira se manifeste em odienta ofensa verbal de outros, e continua seu tema delineando o único modo de fuga para tais transgressores da lei do amor ao semelhante (5:23-26).

O que Jesus requer de nós, quando pecamos deste modo, é o que a maioria dos homens parece temer mais intensamente; ele exige que enfrentemos e corrijamos o problema com nossa vítima. O contexto indica que o irmão que "tem alguma coisa contra ti" não é só alguém que está descontente, mas alguém a quem na verdade causamos dano. Neste caso, o adorador é culpado, não somente mal-entendido. Outros versículos confirmam este significado (Marcos 11:25). O que faz a oferta precisa arrepender-se e procurar o perdão de seu irmão prejudicado. A prontidão com que a parte culpada deve agir, interrompendo o sacrifício bem no meio, reflete a urgência da situação e dá ênfase a como o mau trato dos outros nega a adoração a Deus. As Escrituras estão cheias deste princípio (Salmo 66:18; Tiago 3:9-10; 1 João 4:20-21). A ofensa a outros serve para fechar a porta do céu contra nós.

Enquanto o secularista pendeu para tratar a adoração com certa medida de desprezo, enquanto ele dá ênfase à justa conduta para com os outros, muitos religionistas tentaram, historicamente, usar a adoração como uma cobertura para o fracasso moral. Este foi um jeito especial dos fariseus que procuravam expiar por zelosa cerimônia sua ofensa aos homens (Mateus 23:23-24). Mas os fariseus não deram origem a esta vista esguelhada das coisas. Muitos séculos antes, Amós tinha advertido os presunçosos cidadãos de Samaria que Deus tinha se fartado da sua pretenciosa adoração. O que o Senhor queria, disse o profeta fazendeiro, era o juízo e a justiça (5:21-24). Jeremias, cem anos mais tarde, tinha ecoado o mesmo tema em Jerusalém (7:21-23). Jesus experimentou ensinar aos fariseus a lição dos profetas. Ele os remeteu mais de uma vez às palavras de Oséias: "Misericórdia quero, e não holocaustos" (Mateus 9:13; 12:7). O Senhor teve pouco sucesso em seu empenho, mas sempre foram poucos, como o escriba que observou que amar a Deus com todo o coração e o próximo como a si mesmo excedia "todos os holocaustos e sacrifícios" (Marcos 12:32-33). Jesus disse que ele não estava longe do reino.

Então, qual é a lição aqui? Quando pecamos contra outro, a necessidade não é de mais comparecimento às assembleias de adoração ou maior liberalidade nas coletas dominicais ou evangelismo pessoal mais animado, ainda que estas coisas podem, em geral, ser tratadas mais seriamente por todos nós. A necessidade urgente da hora é de arrependimento e reconciliação com nosso irmão ou irmã ofendido. (Esposos e esposas, especialmente, necessitam de ouvir isto. Lembrem-se de que esposos e esposas e filhos também são "próximos"). Davi abordou este assunto no caso de seu próprio doloroso fracasso moral, com Bate-Seba e Urias: "Pois não te comprazes em sacrifícios, do contrário eu tos daria; e não te agradas de holocaustos. Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado; coração compungido e contrito não o desprezarás, ó Deus" (Salmo 51:16-17). Não tente oferecer a Deus adoração quando o arrependimento é exigido.

Precisamos aprender a abordar nosso pecado e aqueles contra quem pecamos com retidão. "Fui injusto com você; por favor, perdoe-me" são as palavras que não se têm tornado mais fáceis de dizer com o passar dos anos, mas são aquelas que pessoas com nossos imperfeitos antecedentes têm que aprender a dizer com o coração. De outra maneira, não há esperança. Os relacionamentos humanos serão despedaçados e nossa ligação com Deus será, simplesmente, terminada.

É impossível estimar bem quantos dos discípulos do Senhor, hoje em dia, estão se destruindo porque lhes falta ou a humildade ou a coragem para se arrependerem dos pecados contra os outros e procurar seu perdão. O sombrio segredo de sua culpa permanece como alguma pedra maciça em seus corações, invalidando a adoração e sugando a vida espiritual deles (Salmo 32:3-4). Se é o caso com você, deixe de desfilar o cadáver em assembléias de adoração. Dê fim à auto-defesa e à auto-justificação. Vá rapidamente reconciliar-se com aquele que você ofendeu. A dor do arrependimento será, na verdade, pequena, se comparada com a agonia da culpa contínua e da alienação.

"Entra em acordo sem demora com o teu adversário" (Mateus 5:25). Tirando ainda proveito da estrita preocupação dos fariseus com as penalidades civis, Jesus continua a insistir na metáfora do tribunal civil. Entender isto como um mero conselho prudente para acertar "fora do tribunal" de modo a escapar dos caprichos dos juízes corruptos, seria não só tornar sem significado as palavras do Senhor, mas também pô-las em desacordo com o seu contexto. Jesus está ainda tratando do assunto dos pecados contra os outros. O "adversário" não é aquele que fez alguma acusação sem base contra você, mas alguém a quem você ofendeu, defraudou ou difamou e cuja causa é justa. O orgulho pode aconselhar você a permanecer endurecido, mas Jesus insiste numa rápida reconciliação, em vista de um julgamento divino que será executado sem misericórdia (versículo 26). É exatamente este tipo de julgamento que os homens pecadores não podem suportar. É melhor que procuremos a misericórdia apressadamente enquanto a oportunidade está aberta para nós. Até mesmo a clemência divina tem seus limites.


14. Adultério no Coração

"Qualquer que olhar para uma mulher com intenção impura, no coração já adulterou com ela" (Mateus 5:28). Estas são palavras radicais e mesmo cidadãos do reino têm que lutar para não resistir. Sua severa sondagem do coração causa dor quando o Filho de Deus toca nos nervos expostos de nossas moléstias morais. Jesus, tendo tratado do problema do ódio e da malícia, agora volta-se para o problema da concupiscência. Os fariseus tinham, certamente, tratado do problema do adultério, mas só superficialmente. Sua preocupação era evitar uma ofensa capital (Levítico 20:10; Deuteronômio 22:22). Pode-se quase ouvir a maneira em que eles diziam: "Não cometerás adultério" (Êxodo 20:14). Jesus, em contraste, segue as pegadas do pecado do adultério até o seu covil (Mateus 15:19). Assim como ódio no coração é assassinato, assim é adultério a concupiscência desenfreada no coração.

O princípio não era obscurecer parte da aliança mosaica. O décimo mandamento dizia incisivamente: "Não cobiçarás a mulher do teu próximo" (Êxodo 20:17). Paulo, quando ainda um estranho ao evangelho, e um fariseu, tinha sido severamente penetrado por este mandamento (Romanos 7:7). Até Jó, um homem que, aparentemente, viveu antes da lei, entendeu esta verdade ética. "Fiz aliança com meus olhos" ele disse, "Como, pois, os fixaria eu numa donzela?" (Jó 31:1).

Ainda que alguma aplicação mais ampla desta passagem possa ser feita ao desejo carnal cru e sem princípios, que alguém solteiro possa abrigar por alguém semelhantemente descomprometido, o uso que Jesus faz da palavra "adultério" torna claro que sua preocupação presente é com aquele desejo ilícito que viola o próprio espírito da aliança do casamento (2 Coríntios 11:2-3). A preocupação do Senhor, em todo este trecho, é com o nosso dever de amar os outros. Nenhuma pessoa casada pode fazer justiça ao seu companheiro enquanto entregue a incontido desejo por outro. Ainda que seja um assunto da mente, ele é chamado pelo seu nome: pecado.

O Senhor não está tratando aqui da mera passagem momentânea de um desejo pela mente; se assim fosse, não haveria distinção entre tentação e pecado. (Não deveríamos ficar horrorizados pela sugestão de que a concupiscência da carne possa ter feito sua aproximação da mente de nosso Salvador, enquanto ele permaneceu sem pecado, Hebreus 4:15). As palavras "olhar para uma mulher com intenção impura" nos ajuda a entender a exata natureza da transgressão. Isto não é um pensamento fugaz, mas a concentração da mente, com o propósito de cobiçar. O texto grego descreve a pessoa que dirige seus pensamentos ou volta sua mente para uma coisa; neste caso, cobiçar uma mulher (ou um homem). Obviamente, não olhamos para tudo que vemos. O olho abrange um vasto panorama e é deixado para a mente focalizar a atenção. O pecado de Davi não estava em ver Bate-Seba despida, mas em olhar para ela, pondo em mente e, finalmente, na sua desenfreada concupiscência (2 Samuel 11:2-5). Davi queria a oportunidade para possuir Bate-Seba e a encontrou. Sua violação de Êxodo 20:17 não seria menor se essa oportunidade jamais se tivesse apresentado.

Ainda que a palavra portuguesa "concupiscência" denote acuradamente os matizes sensuais do verbo grego (epithumeo), pode-lhe faltar o pensamento concomitante de posse que é inerente a ela. O pecado sendo descrito por Jesus é o cultivo calculado do desejo de possuir alguém a quem não se tem direito. Se é para se fugir deste pecado, a própria aproximação primeira de tais pensamentos tem que ser rejeitada, antes que eles se apoderem da mente e da vontade. Na linguagem do velho provérbio: "Não se pode evitar que os pássaros voem sobre nossas cabeças, mas pode-se evitar que façam ninho em nosso cabelo." Se encontramos dificuldade em distinguir entre tentação e pecado, neste caso é muito mais sábio errar para o lado da precaução do que para o lado da imprudência.

A guerra do cidadão do reino com a concupiscência nestes tempos é destinada a ser uma luta severa e dura. Não vamos escapar facilmente do pântano da lascívia, fornicação e adultério que caiu sobre esta geração. Que nenhum discípulo tenha esta pretensão (1 Coríntios 10:12). Não há restrições sociais nas quais se possa apoiar. Nossa força e defesa tem que residir, integralmente, em nossa profunda e inabalável resolução de manter-nos puros, pelo Senhor. Na análise final, esta é onde o assunto de nossa fidelidade no reino tem sido sempre decidido. "Sobre tudo o que se deve guardar, guarda o teu coração, porque dele procedem as fontes da vida" (Provérbios 4:23).


15. Um Passo Radical

"E se teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti" (Mateus 5:29). Mateus 5:29-30 contém duas das mais chocantes sentenças dos Evangelhos. Em palavras brutalmente francas Jesus fala das ásperas alternativas abertas a um homem confrontado com a aniquilação total, por causa do perigo apresentado por uma parte de seu corpo de inestimável valor. Aqui a ameaça reside no olho direito e na mão direita. Mais tarde, em outro contexto, Jesus repete sua ilustração, acrescentando o "pé" (Mateus 18:8-9; Marcos 9:43-47). A linguagem pode ser chocante, mas a situação não é forçada. Nos dias da medicina mais primitiva, muito membro gangrenoso foi amputado por cirurgiões para salvar a vida do paciente, e a medicina moderna ainda aconselhará a mesma traumática cirurgia, quando uma parte do corpo ameaçar a vida do todo. Sabe-se de homens que fizeram em si mesmos esta cirurgia, quando um braço ou perna, preso numa máquina, estava arrastando-os para a morte. É um passo radical, mas eminentemente sensato.

Esta passagem é o lugar onde aqueles que afirmam firmemente sua confiança na interpretação literal de todas as Escrituras terão que pensar bem. Não pode haver nenhuma questão quanto a que Jesus constroi sua mensagem sobre uma verdade do mundo da carne, mas é evidente pelo contexto que sua linguagem tem aplicação ao mundo do espírito (se o olho direito fosse extirpado o pecador ainda poderia cobiçar tão efetivamente só com o esquerdo). Nestas penosas palavras, a verdadeira profundidade da mudança que o Filho de Deus exige encontra sua dramática expressão. No mesmo tom, Jesus fala de nossa aproximação a ele como uma crucificação (Mateus 16:24-25; veja Gálatas 2:20) e Paulo provê um comentário sobre Mateus 5:29-30, com suas palavras aos Colossenses: "Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno" (3:5).

Ainda que o Senhor não esteja, aqui, falando de mutilação física, que poderia ser totalmente ineficiente contra os impulsos do coração, não deveríamos presumir que a intenção figurativa de suas palavras as torne menos intensamente penosas. Há "partes" de nós S afetos, hábitos, atitudes, valores, relacionamentos S que se tornaram, pelo longo cultivo, partes tão íntimas de nossa personalidade que a sua remoção fará a extirpação de um olho ou mão parecer muito moderada. Muitos de nós passaram longo tempo aprendendo como ser egoístas e concupiscentes. Não deveríamos esperar que o fim destas coisas viesse sem trauma. Gritos de angústia podem levantar-se de algum lugar dentro de nós quando em penitência aplicarmos o escalpelo do evangelho. Mas algumas dores são boas dores. ". . .pois aquele que sofreu na carne deixou o pecado" (1 Pedro 4:1). Podemos escolher evitar este sofrimento, mas nossas queridas concupiscências nos destruirão como uma terrível gangrena da alma.

A natureza radical e decisiva desta renúncia é ressaltada pela instrução de Jesus não somente para arrancar o olho ou cortar fora o membro ofensor, mas para lançá-lo fora. A separação tem que ser absoluta e final, não gradual. Esta é uma solução radical mas deveria ser recebida com alegria, em vez de horror. Qual o homem que tem uma doença que vai resultar com certeza na morte não se regozijaria ao ouvir que o sacrifício de uma parte de seu corpo, ainda que cara, pudesse salvar sua vida? Até mesmo as minúcias da descrição da dor insuportável que sentiria não poderiam roubar a este homem libertado sua sensação de alívio. A única razão pela qual não recebemos com felicidade uma mensagem de importância similar para nossas almas é que ainda não compreendemos a extensão de nosso último prejuízo sem ela. "Que dará o homem em troca da sua alma?"

Ainda que Jesus pudesse ter dito estas impressionantes palavras com bom propósito a qualquer tempo durante este trecho de seu discurso, ele escolheu emiti-las em conexão com a tentação da concupiscência e do adultério. Por quê? Estaríamos errados em concluir que ele assim fez porque os cidadãos do reino não conhecerão desafio mais radical à pureza de seus corações do que em matéria de desejo sensual? "Como têm caído os poderosos!". Davi, que não cedia nenhum terreno em outros campos de batalha, foi abatido facilmente pelo engodo sutil da esposa de outro homem. Muito homem poderoso tem sido reduzido a geléia pela mesma provação. Seremos loucos consumados se não tratarmos esta tentação com a máxima gravidade e andarmos em sua presença com suplicante circunspecção. Na face da dura advertência do Senhor, continuamos a nos admirar da descuidada familiaridade com que alguns discípulos casados tratam os do sexo oposto, e as armadilhas circunstanciais a que eles imprudentemente se expõem. Ainda enquanto muitas igrejas estejam se passando de um célebre caso de adultério para outro, parecemos às vezes não termos aprendido nada. O contexto desta mesma metáfora, usada pelo Senhor na última parte de Mateus (18:8-9) e em Marcos (9:43-47), sugere que um possível significado para o "olho" e a "mão" ofensores é uma ocasião para tropeço. Se é este o caso, estamos sendo intimados a, não somente, remover o ato pecaminoso (quer adultério físico ou adultério do coração), mas quaisquer circunstâncias ou relacionamentos que poderiam facilmente levar a isso. Paulo o apresenta francamente: "Fugi da impureza!" (1 Coríntios 6:18). Como os cristãos desta geração necessitam desesperadamente de ouvir!


16. "Aquele que Repudiar sua Mulher"

"Aquele que repudiar sua mulher" (Mateus 5:31). O assunto do divórcio pode encher de horror o coração do pregador. Mais de dois terços dos pregadores das maiores denominações protestantes da América, recentemente admitiram jamais ter falado sobre este assunto. A questão do divórcio (e novo casamento) toca as vidas de homens e mulheres intimamente e, muitas vezes, dolorosamente. Entretanto, aqueles que entram para o reino não devem esperar que qualquer parte de suas vidas escapará da influência do Rei; nem que eles deveriam desejar isso, uma vez que seus mandamentos não são arbitrários (1 João 5:3) mas são sempre pelo nosso bem (Deuteronômio 6:24). Ainda que este ensinamento possa ser angustiante para nós, não há nenhum lugar onde o verdadeiro discípulo possa esconder-se de suas implicações.

Em Mateus 5:31-32, Jesus continua sua discussão do casamento e do princípio do amor, que ele iniciou no versículo 27.

"Também foi dito: Aquele que repudiar sua mulher, dê-lhe carta de divórcio" (Mateus 5:31). Esta tradição farisaica que o Senhor cita é baseada em uma distorção de Deuteronômio 24:1-4, a primeira parte do qual diz: "Se um homem tomar uma mulher e se casar com ela, e se ela não for agradável aos seus olhos, por ter ele achado cousa indecente nela, e se ele lhe lavrar um termo de divórcio, e lho der na mão e a despedir de casa". O significado destes versículos tinha sido acaloradamente disputado entre as escolas rabínicas. Shammai, insistindo numa causa criminal e legal para o divórcio, ressaltou as palavras "cousa indecente" e limitou-a ao adultério. Hillel reforçou as palavras "não for agradável aos seus olhos" e permitiu o divórcio por qualquer coisa que desagradasse ao esposo. Rabi Akiba foi mais além, permitindo o divórcio se o esposo simplesmente encontrasse uma esposa mais atraente.

De outra informação de que dispomos no Novo Testamento, é evidente que os fariseus compartilhavam dos mesmos pontos de vista frouxos de Hillel, se não outros piores (Mateus 19:3,7) e estavam muito menos interessados no motivo para o divórcio e suas ímpias consequências para a vítima, do que em seguir as formalidades adequadas. A obsessão deles com delicadezas legais ao completo desinteresse do princípio moral é de novo revelada. Os fariseus viam o divórcio como um direito, e entenderam as palavras de Moisés como um mandamento (Mateus 19:7) e não como uma concessão permissiva. Assim fazendo, eles tinham compreendido totalmente errado a lei e seu propósito.

A atitude de Deus para com o divórcio foi abundantemente esclarecida no Velho Testamento, cujo cânon tinha sido encerrado com as sonoras palavras, "porque o Senhor Deus de Israel diz que odeia o repúdio" (Malaquias 2:16). Consistentes com este sentimento divino, as palavras de Deuteronômio 24:1-4 pretendiam limitar o divórcio, já vicejante, e não introduzi-lo e encorajá-lo. Jesus descreve o ensinamento da lei sobre o divórcio como uma concessão à dureza de coração de Israel (Mateus 19:8); não certamente uma "dureza" de rebelião teimosa, que teria sido intolerável (Hebreus 3:7-11), mas conduzida do retardamento espiritual (Marcos 6:52). A lei exercia sua restrição sobre o divórcio de três modos. Ela limitava o divórcio a certas causas. (O contraste de Jesus, de seu próprio ensinamento do divórcio somente por fornicação com o da lei, indicaria que Moisés permitiu mais de uma razão para o divórcio, Mateus 19:7-9). Ela requeria que uma certidão de divórcio fosse dada à esposa (usualmente em presença de duas testemunhas [Mateus 1:19], contendo as palavras "Vejam! estás livre para desposar qualquer homem"). E dava um argumento compulsório contra a ação apressada e imoderada ao proibir o esposo de jamais voltar a tomar como esposa sua companheira divorciada (se ela tivesse casado novamente).

"Eu, porém, vos digo: Qualquer que repudiar sua mulher, exceto em caso de relações sexuais ilícitas, a expõe a tornar-se adúltera" (Mateus 5:32). Em sua resposta à falsa interpretação farisáica sobre o divórcio, Jesus está principalmente interessado no princípio e não no procedimento. Qualquer homem que expulsa sua esposa fiel age sem amor e tem que compartilhar a culpa pelo adultério dela (assumindo-se que ela tenha casado novamente). A única exceção é o divórcio por causa da fornicação, que excluiria seu esposo fazendo dela o que ela já teria se tornado. Neste contexto, parece evidente que ainda que "relações sexuais ilícitas" (porneia) compreenda união sexual ilícita tanto no casamento como fora dele, o Senhor a usa aqui para o pecado dentro da aliança do casamento e não o pecado antes dele.

A disposição corrente de alguns a justificar o divórcio por qualquer razão, se não houver novo casamento, me leva a ressaltar que o pecado do qual Jesus falou aqui reside no divórcio, não no novo casamento. Tal divórcio é errado em três pontos. É errado porque não mostra amor pelo companheiro. É errado porque poderia levar o companheiro divorciado a uma relação condenável. E é errada porque poderia envolver no adultério outra pessoa, antes inocente. A isto sentimo-nos compelidos a acrescentar que, mesmo em casos em que a fornicação ocorreu, o amor redentor do reino, pareceria aconselhar misericórdia e reconciliação, quando possível. O divórcio nunca foi um mandamento. O amor é.

Finalmente, é evidente que Jesus, em sua resposta aos fariseus, viajou além do Deuteronômio, mesmo quando corretamente entendido, e afirmou a lei do reino do céu, que se apoia na vontade de Deus "desde o princípio" (Mateus 19:8-9). A lei de Moisés teria permitido à mulher divorciada casar-se de novo; a lei do reino não permite.


17. Não Juramentos, Mas Verdade

Em Mateus 5:33-37, Jesus apresenta a quarta de suas seis antíteses, que confrontam as perversões farisaicas da lei com a justiça do reino do céu. As exatas palavras do ensinamento tradicional que Jesus cita (versículo 33) não são encontradas em nenhum lugar no Velho Testamento, mas foram criadas de afirmações como aquela de Levítico 19:12: ". . . nem jurareis falso pelo meu nome, pois profanaríeis o nome do vosso Deus" (veja Êxodo 20:17; Deuteronômio 6:11; Números 30:2).

A abordagem dos juramentos, pela lei, era semelhante a sua abordagem do divórcio. A aliança Mosaica não ordenou o divórcio, mas procurava regular e restringir o que já era prevalente. Em correspondência, a lei não originou os juramentos nem ordenou a Israel que jurasse, mas indicou que quaisquer juramentos ditos teriam que ser em nome de Deus (Deuteronômio 6:13; 10:20) e não poderiam ser falsos (Levítico 19:12; Zacarias 8:17; Malaquias 3:5). Mas estas restrições nunca foram para serem entendidas como permissões para mentir, quando não sob juramento. O ódio de Deus a todas as mentiras é mostrado muito claramente no Velho Testamento (Provérbios 6:17; 12:22).

Infelizmente, os fariseus, em vez de encontrar nos regulamentos de Deus concernentes ao juramento um apelo à veracidade constante, acharam neles uma brecha para desengano. O ponto principal de sua tradição era: "Não jure falso quando o nome de Deus estiver envolvido". "Para com o Senhor" era a frase usada na sua perversão. Para facilitar sua desonestidade, os fariseus faziam distinções sofísticas entre juramentos obrigatórios e não obrigatórios (Mateus 23:16-22). Estes hipócritas tinham uma delicada preocupação em evitar o perjúrio (como eles o definiam) mas nenhum compromisso com a honestidade, a veracidade e o amor ao próximo.

É uma das tragédias desta parte do sermão que tem sido reduzida a pouco mais do que o lugar da batalha sobre a tolerância dos juramentos judiciais. O mal que Jesus ataca em sua proibição de jurar (versículo 34) não são os juramentos, mas a fraude. Ele varre fora os vãos juramentos dos fariseus, com suas sutilezas enganosas, ao observar que não há nada pelo que eles possam jurar (o céu, a terra, Jerusalém, suas próprias cabeças) que não esteja, no final, ligado diretamente a Deus e ao seu poder (versículos 34-36; 23:16-22). O Senhor está simplesmente ressaltando a verdade essencial que toda palavra que emitamos está "diante de Deus" e sujeita ao julgamento divino (Mateus 12:36-37). Um simples e enfático "sim" ou "não" coloca os homens sob não menor obrigação de dizer a verdade e honrar seus compromissos do que o mais rígido juramento. Os juramentos nunca tiveram a intenção de aumentar a obrigação do jurador de dizer a verdade (que já existia) mas a dar maior segurança àqueles que os recebiam (Hebreus 6:13-18).

Quais são as lições práticas a aprender de tudo isto? Alguns têm visto aqui uma sólida advertência contra a profanidade. Uma boa lição sobre este assunto seria, certamente, oportuna. Somos, sem dúvida, uma geração profana. Manchados com pequenas blasfêmias e procurando outras maiores, tratamos com urbano divertimento o sacrílego espezinhar de palavras como Deus, Cristo, céu, inferno, salvação e danação. Nosso hábito de pronunciar impensadamente nomes santos nos tem custado nosso senso de reverência e com ele nosso senso de humanidade. Mas a profanidade não é aqui a preocupação fundamental de nosso Senhor. Sua preocupação é com a honestidade, total e absoluta honestidade.

O que devemos a nosso irmão e nosso próximo é a verdade, em todas as nossas palavras, ou palavra nenhuma. Há muitas tentações para mentir e para ser infiel. Ódio, culpa e cupidez nos levam a esticar a verdade, até que ela se rompe. Egoísmo ou concupiscência nos instigam a quebrar os votos solenes do casamento. Irreflexão nos incita a esquecer, como sem importância, as promessas do dia-a-dia que fazemos aos outros. Alguns cristãos denegriram sua integridade por acusações sem fundamento e declarações sem apoio. Outros desgastaram sua honra por compromissos não cumpridos. Tal procedimento é inaceitável em um cidadão do reino. Servimos a um Deus que não pode mentir (Tito 2:1) e temos que levar a seu serviço uma honestidade e uma veracidade transparentes (Colossenses 3:9; Efésios 4:15,25).

Não devemos, porém, encerrar este estudo sem tratar de uma questão óbvia e não resolvida. Pelas palavras "De modo algum jureis" não nos proibiu Jesus qualquer tipo de juramento? Faz muito tempo, em meu coração, uma pronta aceitação de tal conclusão, mas o amplo contexto do Novo Testamento levanta algumas questões sérias sobre ela. Não estamos tão perturbados pelo reconhecimento que Deus (Atos 2:30; Hebreus 6:17; 7:20-21), seu Filho (Mateus 26:63-64) e seus anjos (Apocalipse 10:5-6) fizeram juramentos, como estamos pelo fato que as epístolas de Paulo estão bem salpicadas de expressões semelhantes a juramentos, que não podemos explicar de nenhum outro modo (Romanos 1:9; 9:1; 2 Coríntios 1:23; 11:31; Gálatas 1:20; Filipenses 1:8; et al.).

Como podemos conciliar a clara prática de Paulo com a proibição de Jesus? Primeiro, cremos, por reconhecer que algumas afirmações absolutas mostram-se não o serem quando as Escrituras são consideradas no todo (Marcos 10:11-12 e Mateus 19:9; Mateus 5:42 e 2 Tessalonicenses 3:10). E então, verificando que Jesus está tratando, neste contexto, dos juramentos mentirosos dos fariseus e não dos juramentos solenes daqueles que diriam a verdade em quaisquer circunstâncias, mas acham que às vezes outros necessitam de especial confirmação. Cada cristão tem que pesar esta matéria cuidadosamente, lembrando-se sempre que ele não é compelido a jurar, mas que é sempre obrigado a dizer a verdade.


18. Uma Idéia cujo Tempo não Chegou

Se Jesus estava tentando formular princípios éticos que apanhassem o espírito de sua época, ele certamente foi um fracasso. Seus ensinamentos foram estranhos e extemporâneos e agitaram animosidade mesmo na nação de Israel. Mas o Filho de Deus sempre soube que "o tempo" para seu ensinamento jamais viria na historia. Como ele uma vez disse aos seus ainda incrédulos irmãos: "O meu tempo ainda não chegou, mas o vosso sempre está presente. Não pode o mundo odiar-vos, mas a mim me odeia, porque eu dou testemunho a seu respeito de que as suas obras são más" (João 7:6-7).

Os ensinamentos éticos de Jesus não são menos estranhos a nossa própria época, e não há expressão mais radical da justiça do reino do que nos últimos dois dos seus seis grandes contrastes entre as distorções dos fariseus e a vontade de Deus (Mateus 5:38-48). Estas palavras têm agitado mais controvérsia do que todo o resto do sermão junto, e muitos esforços para explicá-las têm servido apenas para invalidá-las e despojá-las de toda a força. Talvez fosse de alguma ajuda como uma introdução ao ensinamento de Jesus sobre o amor aos próprios inimigos examinar algumas controvérsias que as circundaram.

Tem havido ampla discordância sobre quão larga aplicação do princípio do amor ao próximo deveria ser feita. Uns dizem que ele se aplica apenas às relações "pessoais" e outros têm argumentado que ele tem que se aplicar a todas as facetas da vida do cristão. Em apoio da visão predominante, que estreita a aplicação às relações "um-a-um", Carl F. H. Henry escreveu o seguinte: "Nos círculos de comerciantes cristãos, diz-se freqüentemente que o Sermão da Montanha é o código de ética superlativo para o sucesso nos negócios. Mas o fato é que um grande homem de negócios, que conduz seu comércio pela ética do Sermão: Dando duas vestimentas de graça quando uma é pedida, não resistindo à violência, muito cedo se encontraria endividado sem esperança ou completamente fora do negócio . . . Uma nação que toca seus assuntos pela lei das relações com o próximo: agindo somente pelo princípio do amor não correspondido, dando duas vezes mais do que seus inimigos exigem e empenhada na não-resistência às agressões contra ela, está em processo de suicídio nacional" (Ética Pessoal Cristã, pags. 322-323).

Dietrich Bonhoeffer exprime a visão oposta em seu livreto O Custo do Discipulado: "Este dizer de Jesus retira a igreja da esfera da política e da lei. A igreja não deve ser uma comunidade nacional, como o velho Israel, mas uma comunidade de crentes sem laços políticos ou nacionais. O velho Israel foi ambos: o povo escolhido de Deus e uma comunidade nacional e era, portanto, sua vontade que eles enfrentassem a força com força. Mas com a igreja é diferente: ela tem abandonado o estado político e nacional e, portanto, tem que suportar pacientemente a agressão. . . . Mas esta distinção entre pessoa e função é totalmente estranha ao ensinamento de Jesus. Ele se dirige a seus discípulos como homens que deixaram tudo para segui-lo e o preceito da não-violência se aplica igualmente à vida privada e ao dever da função. Ele é o Senhor da vida, e exige fidelidade integral. Ainda mais, quando se chega à prática, esta distinção levanta dificuldades insolúveis. É possível agir só como um indivíduo, ou só como um funcionário? Não sou sempre um indivíduo, face a face com Jesus, mesmo no desempenho de meus deveres funcionais?" (páginas 121-124).

Aplica-se o princípio do amor a cada aspecto da convivência dos cristãos com os outros ou é ele limitado a certos tratos pessoais somente? Esta é uma questão que tem sido levantada freqüentemente, através dos séculos, e é aquela com a qual o cidadão do reino tem que lutar e decidir. Não há como fugir deste assunto tão prático.

Algumas questões também têm sido levantadas sobre se ao cristão é proibido todo direito de defesa própria em relacionamentos pessoais ou se lhe é exigido submeter-se ao mal somente quando atacado ou maltratado pelo evangelho. Martinho Lutero tinha alguns comentários interessantes sobre este assunto, em suas Conversas à Mesa: "Se alguém penetra em minha casa, tenta fazer violência contra minha família ou a mim mesmo ou causar dano, estou obrigado a defender-me e a eles, em minha condição de dono da casa e chefe da família. Se salteadores ou assassinos tivessem tentado ferir-me ou fazer-me violência injusta, eu teria me defendido e resistido a eles, em nome do príncipe do qual sou súdito. . . . Tenho que ajudar o príncipe a expurgar seu país de maus súditos. E se eu tiver a força para cortar o pescoço deste bandido, é meu dever meter a faca nele. . . . Mas se eu for atacado por causa da palavra divina, em minha condição de pregador, então eu tenho que suportar isso e deixar a Deus puni-lo e vingar-me."

Tudo isto deveria ajudar-nos a ver que temos algumas questões difíceis com as quais lutar, em nosso esforço para entender a verdadeira exigência da justiça do reino. E enquanto lutamos sinceramente para entender e aplicar estes ensinamentos desafiadores temos que guardarmo-nos constantemente contra a tentação de simplesmente raciocinar para afastar qualquer coisa que pareça opressiva e não atrativa. Não podemos menosprezar os ensinamentos de nosso Senhor meramente porque parecem revolucionários. É claro que jamais houve um mestre na história humana mais em desavença com tudo o que os homens, em sua sabedoria, pensaram ser justo, do que Jesus de Nazaré.


19. "Não Resistais ao Perverso"

"Não resistais ao perverso" (Mateus 5:39). Ainda que muita controvérsia cerque esta parte do Sermão, nossa primeira tarefa é deixar de lado as conclusões e tentar entender, na sua forma mais elementar, o ponto que Jesus diz.

Em Mateus 5:38-42, Jesus alarga o escopo e aprofunda a aplicação do princípio do amor ao próximo. Ele agora passou do trato com o problema do mal em nós mesmos para o desafio de lutar contra o mal nos outros. Uma coisa é para o cidadão do reino negar toda a injúria do inocente, mas o que o amor exige dele quando outros, longe de serem inocentes, tentam maltratá-lo e injuriá-lo?

Os fariseus tinham solucionado o problema lindamente. Eles simplesmente pegaram um estatuto do Velho Testamento, regulando a quantidade da compensação que poderia ser imposta pela lei por uma certa injúria cometida e o transformaram em um direito à vingança contra os seus adversários.

O propósito da lei de represália do Velho Testamento tinha, provavelmente, dois lados. Era destinada a restringir e impedir a prática do mal (Deuteronômio 19:20-21). Ela, também, servia para refrear a disposição dos homens a cobrar com raiva uma punição em desproporção com a injúria sofrida (Êxodo 21:23-24). A ira contra uma injustiça sofrida pode facilmente inflamar-se desenfreadamente e extorquir uma punição totalmente exorbitante. A lei de Deus para Israel pretendia que tais excessos, que somente iniciam um círculo vicioso de ódio e violência, fossem coibidos. É também muito importante notar que esta justiça não era para ser aplicada privadamente, mas imposta somente pelos juízes nomeados de Israel (Deuteronômio 19:18).

Os fariseus, evidentemente, viram nas palavras da lei, que eles muitas vezes citavam ("olho por olho, dente por dente"), um direito pessoal à vingança. Em vez de entender isto como uma declaração do castigo máximo possível sob a lei, um freio aos excessos, eles o tomaram como seu mínimo direito pessoal.

Em contraste com o ensinamento dos fariseus, que estabeleceu o direito à vingança pessoal e à retaliação à altura, Jesus diz, "Não resistais ao perverso." Ele, então, segue sua declaração de princípio com quatro ilustrações muito dramáticas.

É imperativo que, logo de saída, consideremos a proibição de Jesus (contra resistir ao mal) no contexto de seu Sermão e, até um certo ponto, no contexto mais amplo do Novo Testamento. A preocupação de Jesus em toda esta parte (5:21-48) é a elaboração do princípio do amor aos outros. No relato de Lucas do Sermão da Montanha, as ilustrações de Jesus de seu princípio são precedidas pelo mandamento para amar aos próprios inimigos e seguidas pela admoestação, "Como quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles" (6:27-31). Talvez isto nos ajude a entender que o Senhor não está emitindo uma doutrina de mera não-resistência mas, simplesmente, usando uma série de declarações muito impressionantes para acentuar nossa obrigação de nunca revidar os males que nos forem feitos, e nunca negar o bem àqueles que nos injuriaram injustamente. Não devemos tirar estas declarações do contexto.

Quando Jesus instrui seus discípulos para não resistirem ao mal, ele não está lhes dizendo para nunca fazer alguma coisa para restringir o mal em outros. Tal interpretação literal preveniria até uma palavra de reprovação. O Senhor ensinou diferentemente em Mateus 18:15-17 e ele mesmo repreendeu o soldado que injustamente o feriu durante o seu julgamento (João 18:23). O que interessa ao Senhor nestes versículos é que nunca deveríamos resistir ao mal com o mal. É exatamente assim que Paulo afirma o princípio, em Romanos: "Não torneis a ninguém mal por mal. . . . Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem" (12:17-21). Este é o resultado natural do mandamento para amar ao próximo como a si mesmo e ao apelo para fazer aos outros o que faríamos a nós mesmos. O que fizermos em resposta ao mal deles tem que ser feito com amor por eles, não com algum desejo de vingança ou preocupação em defender a si mesmo. Parece-me que este princípio não excluiria até mesmo o uso de alguma forma mais vigorosa para restringir outrem de infligir injúria injusta, mas isso tem que ser ministrado por amor ao ofensor e nunca por egoísmo ou vingança.

Assim, nestas acentuadas e dramáticas declarações de Jesus, nas quais ele certamente prendeu nossa atenção, ele está a nos dizer: que é melhor voltar a outra face à pessoa que nos agrediu, do que fazer mal a ela; que é melhor dar nossa capa ao homem que injustamente nos processou por nosso casaco, do que lesá-lo ou reter-lhe o que ele realmente necessita; que é melhor andar duas milhas com o homem que injustamente nos compeliu a prestar-lhe ajuda em uma, do que fazer-lhe mal ou deixar de dar a assistência que ele verdadeiramente necessita; que é melhor dar ajuda ao homem que nos tratou mal, do que reter o que ele, na verdade, requer no seu momento de dificuldade.

Se isto lhe soar como se estivêssemos exaurindo a força destes mandamentos, por favor, lembre-se que aquela instrução de Jesus, "dá-lhe o que pedes" não é ilimitado. Paulo disse, "Se alguém não quer trabalhar . . ." (2 Tessalonicences 3:10). Entretanto, até mesmo a exortação de Paulo não é punitiva, mas motivada por amor. Lembre-se, também, que teremos mais do que o suficiente para desafiar-nos a manter nossos corações livres de todo o egoísmo quando determinamos como devemos tratar com amor aqueles que se portam injustamente, e muitas vezes brutalmente conosco.


20. O Mandamento Inconcebível (Mateus 5:43-48)

A cada nova sentença, avançando desde o versículo 21, Jesus tem arrancado fora um pedaço cada vez maior do ego humano. Cada novo confronto entre as populares perversões farisaicas e a real exigência da justiça do reino serviu para elevar o desafio moral. O que o Senhor afinal ordena na sexta e última destas antíteses haveria de ter atordoado seus ouvintes. Ele tinha falado o inconcebível quando disse, "Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos" (5:44). Para muitos dos seus ouvintes, tal conselho deveria de ter parecido não somente inconcebível, mas impossível! S E o contrário do próprio conceito de justiça.

Agora, pela primeira vez no Sermão, Jesus falou a palavra que melhor resume o princípio fundamental de toda a sua mensagem. Ele conduziu seus ouvintes por um plano ascendente desde aquilo que o amor proibe no trato com outrem (mesmo aqueles que nos maltratam) até aquilo que o amor positivamente exige de nós. E quem, no meio de seus ouvintes, naquela ocasião como agora, poderia ter previsto que a jornada não estaria terminada até que ele exigisse deles a coisa mais dura de todas, que é amar justamente aqueles que temos maior disposição para odiar: nossos inimigos. Finalmente, o Senhor não deixou nenhum espaço para o "eu".

"Inimigo" estava longe de ser uma palavra estranha aos judeus do primeiro século. Ao tempo de Jesus havia uma inimizade palpável que se havia ligado à parede da separação que era a lei (Efésios 2:14-15). O povo de Israel tinha sofrido muito de um mundo hostil e muitas vezes olhou com desdém sobre o paganismo ignorante e a egrégia imoralidade dos gentios. Estes não demoraram a retribuir o favor. Os fariseus, com o seu fervor separatista, não eram ignorantes da exigência da lei, que os filhos da aliança tinham que amar seus próximos como a si mesmos (Levítico 19:18), mas eles entendiam que essa obrigação terminava nas fronteiras de Israel. Havia muitas pessoas para odiar, do lado de fora dos seus limites e muitos da nação sustentavam que não era só seu privilégio, mas também sua obrigação fazer assim. O fato que os fariseus estavam cientes do mandamento para amar, mas tropeçaram na definição de "próximo", é evidenciado pela conversa com um certo advogado (Lucas 10:25-29). O advogado conhecia a fórmula, mas estava ainda por fazer uma aplicação adequada.

Mas como e por que os mestres de Israel chegaram a concluir que a lei ordenava o ódio ao inimigo? Poderia ter sido as "guerras santas" de extermínio que Deus ordenou que Israel fizesse contra os cananeus (Deuteronômio 20:16-18), ou os salmos imprecativos ("Não aborreço eu, Senhor, os que te aborrecem? . . . Aborreço-os com ódio consumado: para mim são inimigos de fato" Salmo 139:21-22. Note especialmente o Salmo 109). Entretanto, ainda que difícil e desconcertante seja o problema que estes fatos apresentam, a lei não distinguia, em matéria de amor ao próximo, entre o israelita e o estrangeiro (Levítico 19:18 com 19:33-34) e não aconselhava a vingança e o ódio ao inimigo (Êxodo 23:4-5). Mesmo Jó, cujo tempo provavelmente antecede a lei, entendeu o pecado de se regozijar com a calamidade sobre um inimigo (Jó 31:29-30). Sempre me impressionou que, quando Paulo procurou instruir seus irmãos no tratamento dos inimigos, não sentiu nenhuma necessidade de alguma nova revelação, mas tirou facilmente do livro de Provérbios: "Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber" (Romanos 12:20; Provérbios 25:21). Não há parcela do Velho Testamento que mais diretamente aborde o problema da atitude de Israel para com os inimigos do que o livro de Jonas. Os assírios eram um povo brutal, inimigos de Deus e dos homens, mas Jeová os amava e pretendia que seu servo Jonas fizesse o mesmo (4:9-11).

Ainda, se depois disto tudo, achamos difícil acreditar que a lei não aconselhou inimizade para com os inimigos, resta-nos confiar no Filho de Deus, que reprova esta idéia como uma concepção errônea da lei, e totalmente inconsistente com a natureza e o propósito de Deus. Foi justo um ensinamento como este que fez a nação tão despreparada para a vinda do reino pacífico.

Tivesse Jesus dito aos seus seguidores para amarem seu "próximo", eles bem poderiam ter continuado nos mesmos velhos e estreitos caminhos, errando completamente a natureza única deste amor. Mas, quando ele lhes ensina a amar seus inimigos, eles podem ficar surpresos, mas ficarão, com certeza, instruídos. Como Kierkegaard observou, o evangelho tornou impossível, para sempre, que alguém se engane a respeito da identidade de seu próximo. Se temos que amar nossos inimigos, então não haverá nenhum membro da raça humana, ainda que diferente, ainda que distante, ainda que desprezível, a quem não deveremos o melhor que lhe pudermos dar.


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