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Misericórdia Imprópria (pdf)
1 REIS 20

Ben-Hadade, rei da Síria, estava exercitando seu poderio militar na direção de Israel, cujo rei Acabe ficou tomado de pânico. Assim, quando Ben-Hadade lhe enviou mensageiros ordenando que entregasse sua prata, seu ouro, suas mulheres e seus filhos, Acabe concordou. Ben-Hadade ficou ainda mais arrogante. Ele disse que tinha mudado de ideia e que, em vez de Acabe entregar todas as suas propriedades, ele simplesmente invadiria e tomaria tudo o que quisesse. Acabe resistiu. Por isso, Ben-Hadade ameaçou enviar toda a sua força militar contra Israel e declarou que venceria. Acabe retrucou com um provérbio que também se aplica em muitas situações: “Não se gabe quem se cinge como aquele que vitorioso se descinge” (1 Reis 20:11). Estava iniciado o conflito. Um profeta de Deus disse a Acabe o que fazer e prometeu-lhe que o Senhor lhe concederia a vitória. De fato, Acabe venceu e mandou os sírios de volta para casa.

A derrota surpreendeu os sírios e eles procuraram explicação do motivo pelo qual tinham perdido. Eles decidiram que o problema era que os deuses de Israel eram os deuses das montanhas, enquanto seus próprios deuses dominavam os vales. O problema estava na escolha do terreno para a batalha. Assim, os sírios se prepararam para travar uma batalha na planície, onde acreditavam que seus deuses venceriam. De novo, Deus enviou um profeta a Acabe para assegurá-lo da vitória. Ele certamente não iria permitir que os sírios cressem que o venceriam apenas mudando os campos da batalha! Israel conseguiu outra vitória decisiva e o próprio Ben-Hadade foi capturado na batalha. Ele lisonjeou Acabe num esforço para salvar sua própria vida e Acabe deixou-o partir.

Como resultado, a palavra do Senhor veio a um profeta, que pediu a outro profeta que o ferisse. O segundo profeta recusou-se e foi morto por um leão logo que partiu. Um terceiro profeta concordou e feriu o primeiro, de modo que ficou desfigurado pelo seu ferimento e mascarado com uma bandagem sobre seus olhos. O profeta ferido encontrou Acabe e contou-lhe uma história sobre como lhe havia sido confiado um prisioneiro para guardar, mas ocupou-se em fazer outras coisas e o prisioneiro escapou. Acabe respondeu que ele deveria morrer. O profeta anunciou: “Assim diz o SENHOR: Porquanto soltaste da mão o homem que eu havia condenado, a tua vida será em lugar da sua vida, e o teu povo, em lugar do seu povo” (1 Reis 20:42).

Dois erros graves foram cometidos pelos personagens deste capítulo: Acabe não matou Ben-Hadade e o segundo profeta recusou-se a ferir o primeiro. A coisa notável sobre ambos os atos é que eles foram misericordiosos. Misericordiosos, mas errados! Misericórdia em si é uma qualidade louvável, mas precisa ser aplicada apropriadamente. Misericórdia no lugar errado pode envolver erro grave. Quando a misericórdia é errada?

Quando nos faz desobedecer ao mandamento de Deus

Quando a voz de Deus ordenou ao segundo profeta que ferisse o primeiro, ele deveria tê-lo ferido porque Deus havia ordenado. Nunca temos o direito de afrouxar os mandamentos do Senhor em virtude da misericórdia. Nossa primeira responsabilidade é amar a Deus, o que inclui obedecer tudo o que ele diz (Mateus 22:37-39; João 14:15). Às vezes, Deus ordena coisas que podem parecer duras ou insensatas para nós... como ferir outro profeta. Ele ordenou a Jeremias que não assistisse a funerais ou festas (Jeremias 16:5-8). Essa ordem, sem dúvida, fez com que Jeremias parecesse rude e insensível, mas a palavra de Deus é mais importante do que as finuras sociais. Ele nos manda demonstrar maior fidelidade a ele do que a nossas famílias, e Jesus Cristo ilustrou esse princípio em sua vida na terra (Mateus 10:37; Marcos 3:31-35). Não nos cabe criticar a vontade de Deus ou procurar contrariar um mandamento específico dele, baseando-nos em “misericórdia”. Alguns têm argumentado contra os mandamentos referentes ao novo casamento de uma pessoa divorciada baseando-se em alguma suposta lei mais alta que deveria governar a aplicação do que Jesus ensinou. Mas quando Saul “misericordiosamente” poupou alguns dos amalequitas em desobediência frontal ao que o Senhor lhe havia dito, ele perdeu seu reino (1 Samuel 15). Isso se reduz a uma questão de confiar na sabedoria de Deus. O padrão de misericórdia é o Deus de misericórdia, não nossa própria noção torcida da coisa amorosa a fazer. A misericórdia tem que ser regulada pelo que a palavra de Deus diz.

Quando é contra os melhores interesses de outros

Há certos atos para com outros que podem parecer misericordiosos na superfície, mas que realmente ferem a pessoa. “Melhor é a repreensão franca do que o amor encoberto. Leais são as feridas feitas pelo que ama, porém os beijos de quem odeia são enganosos” (Provérbios 27:5-6). O que é melhor para alguém não é necessariamente o que é mais agradável. Repreensão penosa pode ser desagradável de ouvir, mas pode ser o meio que o Senhor usa para salvar a alma da pessoa da eterna destruição. Por outro lado, dizer às pessoas o que elas querem ouvir pode feri-las mais tarde. Pedro foi uma pedra de tropeço para Jesus quando o tentou a não sofrer na cruz (Mateus 16:21-23), enquanto que Asa fez a coisa certa quando se opôs à idolatria de sua própria mãe (2 Crônicas 15:16). Ao educarmos crianças precisamos aplicar o amor duro que disciplina quando necessário, apesar de ser doloroso: “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que o ama, cedo, o disciplina” (Provérbios 13:24). Ao lidarmos com irmãos que se afastam da verdade, precisamos estar dispostos a aplicar a disciplina rígida do Novo Testamento, num esforço para trazê-los de volta à sua consciência e salvar suas almas (veja 1 Coríntios 5; 2 Tessalonicenses 3). Ficar complacente e gentil quando alguém está se queimando é uma misericórdia imprópria (Judas 22-23). É muito melhor ferir os sentimentos de alguém do que permanecer calado e assim facilitar o mergulho dele na morte eterna.

Quando nos torna indulgentes em nossa atitude contra o pecado

O espírito de nossa época está dominado pelo liberalismo e a aceitação de qualquer um, e de como eles se sentem. A linha entre o certo e o errado há muito ficou obscurecida, e agora quase foi apagada inteiramente. Em contraste, o Novo Testamento está cheio de um ar de definição e convicção que refletem o fato que Deus tem falado. Sua vontade é clara e objetiva. O povo de Deus deve ser “coluna e baluarte da verdade” (1 Timóteo 3:15). Quando Deus fala, não devemos duvidar. Quando Deus proibiu não temos direito a dar permissão. Podemos oscilar pelas circunstâncias, pelos sentimentos, pela simpatia ou por muitas outras coisas, mas Deus é o padrão do que é certo e precisamos confiar nele o suficiente para ficarmos firmes por sua vontade. Às vezes as pessoas pensam que a mansidão exige que elas sejam extremamente tolerantes. A verdadeira humildade significa que não procuramos impor-nos; isso não significa que estejamos duvidosos quanto à verdade. Quando perdemos nossa firmeza, ficaremos incapazes de resistir aos ataques do diabo (Efésios 6:10-13).

Quando leva a compromisso com o mal

O Novo Testamento está cheio de espírito de luta. O diabo está batalhando contra nós com todo o seu poder. Ele é o inimigo e precisamos ver-nos como se estivéssemos em guerra e precisamos lutar diligentemente pela fé (Judas 3). Precisamos não dar encorajamento ao erro ou àqueles que o promovem (2 João 9-11). O diabo tem anunciado amplamente a ideia de que tudo é belo a seu próprio modo. Ele quer que achemos algum bem em tudo e em todos. Ele tenta colorir tudo em tons de cinza. A Bíblia, por outro lado, está cheia de linguagem forte contra o pecado e a falsa doutrina. Muitas das coisas que Jesus disse aos fariseus quase parecem sub-cristãs para nosso mundo “modernizado” (Mateus 23, por exemplo), o que nos faz refletir no que o cristianismo se tornou se Cristo está sendo excluído! Passagens como Tito 1, 2 Pedro 2; Judas; Apocalipse 2:6; 19:1-6 são muito fortes na batalha contra o erro e contra aqueles que o patrocinam. Devemos não ceder nem arrumar nenhum acordo. Quando a igreja de Laodiceia tentou comprometer o evangelho (Apocalipse 3:14-22), eles deixaram o Senhor do lado de fora batendo na porta de sua própria igreja pedindo permissão para entrar. Nossos compromissos podem excluir o Senhor de nossas vidas.

O ponto é que a batalha que travamos é do Senhor. Não estava na autoridade de Acabe conceder misericórdia que Deus não tinha concedido. Foi um erro do segundo profeta recusar “misericordiosamente” ferir o primeiro quando Deus o tinha ordenado. Precisamos ser militantes em nossa defesa da verdade e recusar estender a misericórdia falsa e mal aplicada que nos leva a desviar da força e da convicção que o Senhor exige. A misericórdia é boa, quando está no seu devido lugar.

–por Gary Fisher


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