Apocalipse: Lição 26

Deus Envia os Sete Flagelos (Apocalipse 15:1-8)

Conforme a organização dos capítulos 14 e 15 sugerida na lição 25, este capítulo contém o sétimo sinal que, por sua vez, revela a próxima série de sete – os flagelos (as taças). Explicando o capítulo desta maneira, o sétimo sinal é interrompido por um pequeno intervalo, semelhante aos intervalos que precederam o sétimo selo (capítulo 7) e a sétima trombeta (10:1-11:14). Como os outros intervalos, este serve para assegurar os fiéis. Deus prepara provações e castigos, mas não esquece dos seus servos, os vencedores exaltados que adoram a Deus e ao Cordeiro.

O Sétimo Sinal Introduzido (15:1)

15:1 – Vi no céu outro sinal grande e admirável: sete anjos tendo os sete últimos flagelos, pois com estes se consumou a cólera de Deus.

Vi no céu outro sinal grande e admirável: Um “outro sinal” no céu sugere uma ligação aos sinais anteriores. Há dois possíveis significados: Œ A primeira possibilidade se baseia na linguagem do versículo em relação a dois outros versículos no Apocalipse que usam a mesma expressão (12:1 e 12:3). Nesta interpretação, este seria o terceiro de três grandes sinais no céu. Os primeiros dois apresentaram os dois lados da batalha – a mulher (igreja) e o dragão (diabo). Agora, o terceiro traz a resposta final de Deus, os sete últimos flagelos.  A segunda possibilidade explica este versículo em relação ao contexto mais imediato, contando os sinais a partir das quatro vozes no capítulo 14. Desta maneira (o sistema de organização que tenho seguido nestes comentários), o capítulo 15 encerra uma série de sete sinais e introduz a próxima série de sete:

ŒA primeira voz: o evangelho para as nações, avisando sobre o juízo de Deus

 A segunda voz: a Babilônia caiu

Ž A terceira voz: os adoradores da besta atormentados

 A quarta voz: os que morrem no Senhor abençoados

 O filho do homem ceifa a terra

‘ O anjo do santuário vindima a videira e o lagar é pisado

’ Os sete anjos recebem as taças dos sete flagelos

Sete anjos tendo os sete últimos flagelos: Do mesmo modo que o sétimo selo revelou os sete anjos com as sete trombetas, o sétimo sinal revela os sete anjos com os sete flagelos. “Flagelo” vem de uma palavra que significa ferimento (Lucas 10:30), açoite (Atos 16:23; 2 Coríntios 11:23; etc.) ou praga (diversas vezes na LXX). Os sete flagelos são os açoites enviados por Deus para castigar os homens dignos de sua reprovação. Da mesma maneira que ele mandou pragas sobre os egípcios, os israelitas rebeldes, etc., ele agora envia pragas para castigar aqueles que adoram a besta.

Com este se consumou a cólera de Deus: Sobre a cólera de Deus, veja os comentários sobre 11:18 e 14:10. A cólera dele chega ao fim em relação aos malfeitores no Apocalipse. A mesma linguagem descreve o castigo do povo de Israel (Ezequiel 7:1-10). De fato, o juízo profetizado por Ezequiel não foi uma destruição total ou absoluta, e muito menos o fim do mundo. No mesmo sentido, o cumprimento da profecia de João não exige a destruição total dos adoradores da besta, nem sugere o fim do mundo. A certeza do cumprimento da vontade de Deus é comunicada nesta frase, quando ele trata do assunto como algo já feito – “se consumou” (compare Salmo 2:6, escrito 1.000 anos antes de Jesus ser estabelecido no seu trono).

O Intervalo (15:2-4)

15:2 – Vi como que um mar de vidro, mesclado de fogo, e os vencedores da besta, da sua imagem e do número do seu nome, que se achavam em pé no mar de vidro, tendo harpas de Deus;

Vi como que um mar de vidro, mesclado de fogo: O mar de vidro já apareceu na descrição de Deus no trono (4:6). Representa a santidade de Deus, separado de suas criaturas. Agora, a figura é ampliada para mostrar o progresso dos fiéis. Não é apenas o mar, mas o mar de vidro mesclado de fogo. O fogo representa, muitas vezes na Bíblia, o castigo divino. Mas desta vez, não está saindo do altar ou do trono. O fogo está relacionado às pessoas que se aproximam do Senhor. Um outro sentido mais relevante é das provações que servem para purificar e santificar os servos do Senhor (Números 31:23; Salmos 17:3; 66:10,12; Zacarias 13:9; 1 Coríntios 3:12-15; 1 Pedro 1:7; Apocalipse 3:18). Juntando as figuras do mar de vidro e do fogo, esta imagem destaca a necessidade de ser santificado pelo fogo para se aproximar de Deus. Este sentido é reforçado no restante do versículo.

E os vencedores da besta, da sua imagem e do número do seu nome: Como as figuras dos 144.000 (7:1-8; 14:1-5) e da grande multidão (7:9-17), esta descrição identifica os fiéis que resistem a tentação de adorar a besta. Aceitam a tribulação nesta vida e até aceitam a sua própria morte (13:14-17), mas não negam o Senhor (12:11).

Que se achavam em pé no mar de vidro: A posição dos vencedores apresenta duas possibilidades pela frase “no mar”. A preposição usada aqui (grego, epi) pode ser traduzida de várias maneiras. Um sentido é “perante” ou “perto de”. Neste caso, os vencedores estariam na beira do mar, cantando o cântico de Moisés, nos lembrando da celebração de vitória quando os israelitas chegaram ao lado oriental do Mar Vermelho (Êxodo 14-15). O sentido mais provável, porém, é a tradução encontrada em muitas versões, usando o significado de “em” ou “sobre”. Neste caso, a imagem é dos vencedores em pé sobre o mar de vidro e fogo, passando pelas tribulações para chegar perto de Deus. Consistente com os símbolos do tabernáculo, dos altares, etc. já encontrados no livro, esta figura nos lembra do “mar de fundição” (1 Reis 7:23-26,39) ou “bacia de bronze” (Êxodo 30:17-21) do Antigo Testamento. Esta bacia ou mar servia para a purificação dos sacerdotes antes de entrarem na presença de Deus no tabernáculo ou templo. Os vencedores são os fiéis que, passando pela provação de fogo, são purificados para entrarem na presença de Deus (1 Coríntios 3:12-15; 1 Pedro 1:7).

Tendo harpas de Deus: A figura do louvor no templo se completa com a menção de harpas, que foram usadas na adoração em Jerusalém desde a época de Davi (2 Samuel 6:5; 1 Crônicas 25:1; etc.). Veja os comentários sobre 5:8 (lição 13) e 14:2 (lição 24).

 

 

15:3-4 – e entoavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro, dizendo: Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus, Todo-Poderoso! Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações! 4 Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo; por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos.

E entoavam o cântico de Moisés, servo de Deus, e o cântico do Cordeiro: As outras vezes que encontramos harpistas no Apocalipse, eles “entoavam novo cântico diante do trono” (14:2-3; 5:8-9). Duas figuras fortes de vitória se juntam aqui: Œ O cântico de Moisés celebrou a vitória que Deus deu aos israelitas sobre os egípcios (Êxodo 15). A salvação em Cristo é comparada à passagem pelo mar Vermelho (1 Coríntios 10:1-2). No Apocalipse, o Egito já apareceu como figura do adversário mundano que odeia os discípulos do Senhor (11:8). A vitória sobre as forças perseguidoras, sobre a besta e seus aliados, certamente seria motivo de louvor.  O cântico do Cordeiro, obviamente, refere-se à vitória dos remidos em Cristo.

Grandes e admiráveis são as tuas obras, Senhor Deus, Todo-Poderoso!: Deus é louvado por sua onipotência (cf. 1:8; 4:8; 11:17; 16:7,14; 19:6,15; 21:22).

Justos e verdadeiros são os teus caminhos, ó Rei das nações!: Ele é adorado por sua perfeita justiça (cf. 16:5; 19:2,11), e honrado como o soberano Rei dos reis (cf. 1:5; 6:10; 17:14; 19:16).

Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor?: Palavras de desafio. Depois de ver todas as demonstrações do poder do soberano Rei, quem teria coragem de adorar a besta? Quem não daria honra e glória ao Senhor?

Pois só tu és santo: Os quatro seres viventes já iniciaram o louvor no céu com a proclamação da santidade de Deus (4:8). Agora, todos são convocados a participarem da adoração merecida por Deus.

Por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos: Quando completar a sua demonstração de poder, soberania e santidade, Deus será honrado por todos. Na cena de louvor dos capítulos 4 e 5, “toda criatura” participa da adoração (5:13). Deus exaltou o seu Filho, pois este merece a adoração de todos: “Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Filipenses 2:9-11). Alguns se humilham e honram a Deus voluntariamente (Tiago 4:10; 1 Pedro 5:6). Outros recusam se humilhar e são humilhados pela mão do Senhor (Lucas 14:11; 18:14). De um modo ou do outro, reconheceremos a justiça de Deus.

O Sétimo Sinal Continua (15:5-8)

Este sinal começou no versículo 1, mas foi interrompido pela visão dos vencedores no mar de vidro louvando a Deus. Agora, continuamos com o sinal dos sete anjos com suas taças.

15:5 – Depois destas coisas, olhei, e abriu-se no céu o santuário do tabernáculo do Testemunho

Depois destas coisas, olhei, e abriu-se no céu o santuário do tabernáculo do Testemunho: A cena continua com figuras do louvor no Velho Testamento. O santuário no céu, onde Jesus permanece à destra do Pai (Hebreus 9:11-12; Atos 2:34-36; 7:55-56), servia como a base da cópia feita por Moisés (Hebreus 9:23-24). As referências ao santuário no Apocalipse têm, como base, aquelas citações do tabernáculo e do templo dos judeus, mas falam do santuário verdadeiro. O Testemunho, ou arca da aliança, ficava no Santo dos Santos, e representava a presença de Deus no meio do povo. O que se segue neste sinal vem do trono de Deus.

15:6 – e os sete anjos que tinham os sete flagelos saíram do santuário, vestidos de linho puro e resplandecente e cingidos ao peito com cintas de ouro.

E os sete anjos que tinham os sete flagelos saíram do santuário: Os mesmos sete anjos que João viu no versículo 1 agora saem do santuário com seus flagelos, claramente enviados por Deus.

Vestidos de linho puro e resplandecente e cingidos ao peito com cintas de ouro: Quando José foi escolhido como representante do Faraó, ele recebeu roupas de linho e um colar de ouro (Gênesis 41:42). Mordecai foi honrado pelo rei com vestes reais de ouro e linho (Ester 8:15). Ouro e linho faziam parte da vestimenta da rainha em Ezequiel 16:13. Linho fino e ouro foram usados no tabernáculo (Êxodo 25-27), e também nas vestes sacerdotais (Êxodo 28:4-8). As vestimentas de linho puro e de ouro mostram a santidade (cf. 19:8) e a autoridade destes anjos como representantes de Deus. Este significado se torna evidente em Daniel 10:5, onde a oração de Daniel foi respondida por “um homem vestido de linho, cujos ombros estavam cingidos de ouro puro de Ufaz”. A mensagem naquele capítulo é da vitória dos servos de Deus sobre os ímpios, a mesma mensagem que vem com os sete flagelos.

15:7 – Então, um dos quatro seres viventes deu aos sete anjos sete taças de ouro, cheias da cólera de Deus, que vive pelos séculos dos séculos.

Então, um dos quatro seres viventes deu aos sete anjos sete taças de ouro, cheias da cólera de Deus: Não pode haver dúvida. O que os sete anjos vão derramar vem de Deus. Anjos com roupas de sacerdotes reais saem do santuário e recebem as taças dos quatro seres viventes. As pragas que serão enviadas sobre a criação vêm do próprio Senhor, pois as taças estão cheias da ira do Senhor.

As referências às taças de ouro ensinam uma coisa importante sobre a oração. A primeira vez que encontramos taças de ouro no Apocalipse é no 5:8, onde os quatro seres viventes tinham “taças de ouro cheias de incenso, que são as orações dos santos”. Agora um dos quatro seres viventes entrega aos sete anjos as “taças de ouro, cheias da cólera de Deus”. Eles levaram as orações dos santos e trouxeram a resposta na forma da ira de Deus contra os ímpios. Já encontramos uma figura paralela no sétimo selo, quando o anjo com um incensário de ouro ofereceu o incenso e as orações dos santos e, em seguida, usou o incensário para atirar à terra o fogo do altar (8:3-5).

Deus, que vive pelos séculos dos séculos: O dragão, as bestas, a Babilônia e todos os servos deles podem ser destruídos, mas Deus é eterno. A perseguição pode ser intensa, mas é passageira. Deus vive eternamente. A vida física do homem dura pouco, mas a vida com Deus é eterna. Esta perspectiva eterna se torna imprescindível para os discípulos, especialmente diante de tribulações.

15:8 – O santuário se encheu de fumaça procedente da glória de Deus e do seu poder, e ninguém podia penetrar no santuário, enquanto não se cumprissem os sete flagelos dos sete anjos.

O santuário se encheu de fumaça procedente da glória de Deus e do seu poder: Na destruição de Sodoma e Gomorra, a fumaça subiu do fogo de castigo divino (Gênesis 19:28). Quando Deus desceu sobre o monte Sinai, o fogo do Senhor criou espessa fumaça (Êxodo 19:18). Davi juntou estas figuras – fogo, fumaça e castigo divino – num salmo de louvor ocasionado pelo seu livramento das mãos dos seus inimigos: “Na minha angústia, invoquei o SENHOR, clamei a meu Deus; ele, do seu templo, ouviu a minha voz, e o meu clamor chegou aos seus ouvidos. Então, a terra se abalou e tremeu, vacilaram também os fundamentos dos céus e se estremeceram, porque ele se indignou. Das suas narinas, subiu fumaça, e, da sua boca, fogo devorador; dele saíram carvões, em chama” (2 Samuel 22:7-9; cf. Salmo 18:6-8). Estas palavras de Davi se enquadram perfeitamente na mensagem dos flagelos. Os discípulos angustiados clamaram ao Senhor e suas orações foram levadas ao trono (5:8; 8:3-4), de onde veio a resposta do castigo divino para com os perseguidores (8:5; 15:8).

E ninguém podia penetrar no santuário, enquanto não se cumprissem os sete flagelos dos sete anjos: O santuário cheio da glória de Deus reflete as imagens da inauguração do tabernáculo (Êxodo 34:34-35) e do templo (1 Reis 8:10-11). Deus está no santuário, e nem os sacerdotes conseguem ficar na presença da sua glória. As obras dele na fumaça de glória e poder não são totalmente manifestas, mas depois de cumprir os seus julgamentos, o seu povo estará livre para caminhar rumo a terra prometida (Êxodo 40:36). Depois da fumaça dos flagelos e o castigo dos inimigos, os santos terão a visão clara da nova Jerusalém e da glória de Deus (capítulos 21 e 22).

Conclusão

Da mesma maneira que o sétimo selo revelou os sete anjos com as sete trombetas, o sétimo sinal apresentou os sete anjos com os sete flagelos. As orações dos santos foram ouvidas, e serão respondidas por meio de uma série de castigos derramados das sete taças de ouro. Deus está no seu santuário fazendo o seu trabalho. Ninguém pode penetrar este santuário até ele cumprir estes julgamentos.



Perguntas

1. O que João viu no sinal no início deste capítulo?

2. Quem estava em pé no mar de vidro? 

3. O que significa “vidro, mesclado de fogo” (15:2)?

4. Qual aspecto do caráter de Deus é enfatizado no cântico que os vencedores entoam?

5. João diz que “abriu-se no céu o santuário” (15:5). Compare esta abertura do santuário com a outra que já encontramos (11:19). Nos dois casos, o que acontece quando o santuário se abre?

6. Quem saiu do santuário?

7. O que significam as vestes de linho e ouro?

8. Quem deu as taças de ouro aos anjos? A última vez que encontramos taças de ouro, o que elas continham? O que aprendemos deste fato?

9. O que encheu o santuário de Deus?


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