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"Salvos,
Através da Água"
Certa vez li, em algum lugar, que, se a
superfície da terra fosse lisa, a água a cobriria numa profundidade de cerca
de 3 km. Parece que lembro também que os seres vivos, mesmo o corpo
humano, se compõem de aproximadamente 80% de água. A água é,
obviamente, de todas as substâncias uma das mais encontradas, e sem ela toda a
vida acabaria.
Com toda a natureza nos impondo a necessidade de água, ela parece ser um símbolo
quase inevitável de vida e salvação. Não admira que Deus lhe dê um
destaque tão grande nas Escrituras e no projeto de redenção.
Um dos empregos mais naturais da água é como recurso purificador. Quando
que as pessoas deixaram de usar a água para tirar a sujeira do corpo ou de
qualquer outra coisa suja? Abraão pediu água para que os seus três
convidados pudessem lavar os pés (Gênesis 18:4). Em Gênesis 43:31,
registra-se que José lavou o rosto antes de comer.
A mudança da purificação literal a um sentido simbólico não é coisa difícil.
As Escrituras falam de purificações rituais que capacitavam os sacerdotes para
diversos serviços: "Toma os levitas . . . e purifica-os; assim
lhes farás [cerimonialmente], para os purificar: asperge sobre eles a água
da expiação; e sobre todo o seu corpo farão passar a navalha, lavarão as
suas vestes e [assim] se purificarão" (Números 8:6-7). O povo
em geral também tinha várias purificações que os limpava da contaminação
cerimonial (Levítico 4:8-9; Números 19:11-13).
A água era usada para purificação espiritual. Assim, Jó fala de se
lavar com "água de neve" e limpar as mãos com sabão (9:30).
Ainda mais diretamente, Davi roga: "Lava-me completamente da minha
iniqüidade e purifica-me do meu pecado . . . Purifica-me com hissopo, e ficarei
limpo; lava-me, e ficarei mais alvo que a neve" (Salmos 51:2,7; veja
Provérbios 30:12; Isaías 1:16).
Tudo isso nos prepara para o elo inquebrável que o Novo Testamento estabelece
entre a purificação do pecado e as águas do batismo. Ananias disse a
Saulo: "E agora, por que te demoras? Levanta-te, recebe o
batismo e lava os teus pecados, invocando o nome dele" (Atos 22:16;
veja 1 Coríntios 6:11; Efésios 5:26; Tito 3:5). Em 1 Pedro 3:20,21, o apóstolo
insiste que o batismo é um banho que salva, não um banho que meramente limpa a
sujeira do corpo.
A água também tem algum sentido como elemento de julgamento, com poder para
libertar e para destruir. Ocorrem-nos dois exemplos impressionantes do
Antigo Testamento: a travessia do mar Vermelho por parte de Israel e, é claro,
o dilúvio. No primeiro caso, relatado em Êxodo 14, o mar Vermelho se
tornou a barreira entre Israel e a escravidão e o meio de se destruir Faraó. O
salmista disse: "Dividiu o mar e fê-los seguir; aprumou as águas
como num dique . . . Dirigiu-o com segurança, e não temeram, ao passo que o
mar submergiu os seus inimigos" (Salmo 78:13, 53).
Pedro, referindo-se ao grande dilúvio, disse que na arca "oito pessoas,
foram salvos, através da água" (1 Pedro 3:20). Mas o mesmo
acontecimento foi um julgamento sobre a terra (2 Pedro 3:5-6) e serve de um tipo
de garantia de que todo o mundo será novamente destruído S pelo fogo da próxima
vez.
Com o dilúvio, Deus destruiu os perversos dos dias de Noé (Gênesis 6:5-7) e
libertou o justo Noé (Gênesis 6:9). Mas o valor redentor do dilúvio
teve efeitos ainda mais abrangentes. Ele preservou uma linhagem justa para
o Messias, que viria "buscar e salvar o perdido" (Lucas 19:10),
e "dar a sua vida em resgate por muitos" (Mateus 20:28).
Pedro prosseguiu afirmando que o dilúvio simboliza "o batismo, agora
também vos salva, não sendo a remoção da imundícia da carne, mas a indagação
de uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus
Cristo" (1 Pedro 3:21). O pecador é batizado na morte de Jesus
(Romanos 6:3), um acontecimento que liga o julgamento de Deus sobre o pecado e a
redenção do pecador. Em certo sentido, portanto, ser batizado é ser
julgado e redimido no mesmo ato. A morte do velho homem, a ressurreição
do novo.
Por fim, Pedro estabelece uma relação entre a água e a criação, quando diz
que os céus e a terra surgiram "da água e através da água pela
palavra de Deus" (2 Pedro 3:5). Que adequado, então, que a água,
no ato do batismo, desempenhe o seu papel na formação, por parte de Deus, da
nova criação: a pessoa em Cristo (2 Coríntios 5:17). A transformação
do velho homem no novo é tão radical, que somente um acontecimento tão
radical quanto a própria criação pode servir de analogia ou antítipo
adequado. Nas águas do batismo, Deus forma "feitura dele, criados
em Cristo Jeus . . ." (Efésios 2:10).
Nunca nada foi mais verdadeiro que a afirmação de que o homem é "salvo
através da água". Deus pôs água entre nós e a vida, quer
falemos de vida física, quer tratemos de vida espiritual.
- por James W. Ward
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