O que o cego viu

Nos últimos meses antes da crucificação de Jesus, os conflitos entre o Filho de Deus e as autoridades religiosas judaicas aumentavam. Os ensinamentos de Jesus cativavam a atenção das multidões, e a presença dele em Jerusalém durante três festas religiosas nos últimos seis meses (veja João 7:2,10; 10:22-23; 12:1,12) deu oportunidades amplas para os conflitos entre o verdadeiro Mestre e os arrogantes líderes do povo. Em um desses conflitos, uma cura impressionante levou à discussão entre os judeus e uma família, culminando na censura dos líderes por Jesus. O relato se encontra no nono capítulo do evangelho segundo João. Observemos a história e, especialmente, os comentários de um cego que viu a Jesus.

O homem nasceu cego. Os discípulos de Jesus imaginavam que o sofrimento dele fosse devido ao pecado de alguém – ou do homem ou dos seus pais. Sofrimento nesta vida pode ser conseqüência de pecado próprio, mas nem sempre vem por este motivo. Homens fiéis como Jó, Daniel, Paulo e o próprio Jesus sofriam. Pessoas fiéis sofrem, até por causa da sua fé (2 Timóteo 3:12; 1 Pedro 2:19-21).

O ponto principal, para Jesus, não foi a causa do sofrimento, e sim o benefício ou propósito dele. Ele viu a oportunidade de demonstrar o poder de Deus e de se mostrar como a luz do mundo (9:3-5). Ele curou o homem (9:6-7). Talvez não teria arrumado confusão com os judeus só pela cura, mas Jesus realizou este milagre no sábado, violando as tradições deles (9:14,16).

Ao longo das discussões relatadas neste capítulo, o homem curado fala dez vezes, respondendo às dúvidas e perguntas do povo, dos líderes religiosos e, por último, respondendo ao próprio Jesus. Nas afirmações deste homem, percebemos uma sinceridade e honestidade que todos nós precisamos, e que os líderes em Jerusalém nem tinham, nem compreendiam. Por suas palavras, podemos entender o que o homem, outrora cego, chegou a ver.

Ele falou com os vizinhos e conhecidos 

Logo após a cura, as pessoas que conheciam o cego ficaram perplexas e discutiram entre si. Será que é o mesmo que era cego? O mendigo conhecido?

u Sou eu (9:9). Ele sabia a verdade e respondeu à dúvida dos vizinhos. Não tinha motivo para negar a sua identidade nem o seu passado como o mendigo cego. Sua resposta levou a outras perguntas. O que aconteceu? Como foi curado?

Jesus fez lodo e mandou-me lavar. Fiz o que mandou, e fui curado (9:11). Jesus o curou. Ele fez apenas o que Jesus mandou. Esta resposta aumentou a curiosidade, e queriam ver Jesus. Onde está?

Ž Não sei (9:12). A mesma sinceridade deste homem se transparece nesta resposta. Ele não sabia para onde Jesus fora, e falou a verdade. Recebeu a bênção, mas ainda não sabia como guiar outros a Jesus.

Ele falou com os fariseus

O caso chegou rapidamente ao conhecimento dos líderes judeus, e começaram a interrogar o homem. Queriam saber o que aconteceu.

Jesus aplicou lodo aos meus olhos, lavei-me e fui curado (9:15). A mesma pergunta traz a mesma resposta. O homem honesto não oferece versões distintas de sua história para pessoas diferentes. Falando com o povo comum, ou com os líderes religiosos, a resposta é a mesma.

Ele é profeta (9:17). Esta afirmação é um dos comentários mais interessantes do homem curado. Ele ainda não sabia tudo sobre Jesus, mas já entendeu o significado dos sinais milagrosos. Moisés realizou milagres para confirmar a sua mensagem profética. Elias e Eliseu fizeram sinais para provar que as suas pregações vinham de Deus. No Novo Testamento, também, os sinais realizados pelos apóstolos serviam para confirmar a palavra falada (Marcos 16:20; 2 Coríntios 12:12; Hebreus 2:3-4).

Não sei se Jesus é pecador, mas sei que ele me curou (9:25). O homem se mostra aberto para ouvir e compreender o significado do que aconteceu, mas ele não nega o fato básico que já confessou. Neste momento, ele está processando os dados e ouvindo os argumentos. Ainda chegará a sua convicção sobre o Cristo.

Já expliquei o que aconteceu; por que perguntaram de novo? Querem ser seus discípulos, também? (9:27). Por que perguntam? Este homem simples faz perguntas importantes. Perguntam por qual propósito? Estão realmente buscando a verdade, ou simplesmente procurando uma saída, uma maneira de negar os fatos? Nem todas as perguntas são honestas e boas, e nem todas merecem respostas (2 Timóteo 2:23-26; Tito 3:9). A outra pergunta aqui abre uma porta de oportunidade aos fariseus. O homem sugere o melhor motivo possível. Vocês, também, são pessoas honestas? Querem seguir esse profeta? Mas a mesma pergunta deu-lhes, também, uma saída. Poderiam continuar negando as evidências e usar as palavras do homem para condená-lo. Foi exatamente isso que decidiram fazer.

| Vocês são os líderes religiosos, e não sabem de onde vem Jesus? Que estranho! Ele, obviamente, é de Deus! (9:30-33). A desonestidade dos fariseus, diante dos fatos apresentados, ficou bem evidente ao homem curado. As explicações deles não foram adequadas. Alguns alegaram que ele não fosse o mesmo homem cego de nascença, mas os próprios pais os desmentiram. Outros concluíram que Jesus não fosse de Deus, porque violou as regras dos fariseus sobre o sábado. Mas o homem curado viu a prova e decidiu ser discípulo do profeta chamado Jesus. A sua honestidade lhe custou caro. Ele foi expulso da sinagoga.

Ele falou com Jesus

A sua aceitação da pessoa que o curou levou este homem a ser rejeitado pelos homens. Mas Jesus não o abandonou. O Senhor o encontrou com o propósito de realizar uma obra maior ainda – abrir os seus olhos espirituais. Jesus abordou o assunto com uma pergunta simples mas profunda: “Crês tu no Filho do Homem?” (9:35).

} Quem é o Filho do Homem, para que eu possa crer nele? (9:36). O milagre provou que Jesus era profeta, mas o homem ainda desconhecia a sua mensagem. Ele estava pronto para ouvir, ansioso para conhecer o Filho do Homem.

Creio, Senhor (9:38). Jesus se revelou, e o homem compreendeu o significado de tudo que havia acontecido. Jesus era profeta, mas mais ainda, era o esperado Messias. O homem que fez lodo foi o próprio Deus! Foi firmada a sua fé na divindade de Jesus, o “Eu Sou” que, há pouco, fora rejeitado pelos homens e quase apedrejado no templo (8:24,56-59), O homem fez o que todos os homens devem fazer diante de Jesus Cristo. Adorou-o. E Jesus, sabendo perfeitamente que a adoração pertence somente a Deus (Mateus 4:10), aceitou o louvor deste homem. Pelas suas ações, ele confirmou a conclusão do homem. Jesus é o eterno Deus.

O cego viu o que os líderes religiosos recusaram enxergar. Ele viu Jesus, o Ungido de Deus, o único verdadeiro Salvador.

Nós – todos nós – precisamos ver o que o cego viu. Precisamos chegar até Jesus, a nossa única esperança da vida eterna. Ele merece a nossa obediência e a nossa adoração.

–Dennis Allan


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