Share Button

Parte 2 de 2         (Parte 1 de 2)
A música instrumental no louvor:

Uma abordagem bíblica/histórica

Quero ligar esta parte do estudo com a primeira. Realmente as duas são o desenvolvimento do mesmo argumento. É um argumento histórico. Simplesmente dei um esboço da música no louvor como foi desenvolvida no Velho Testamento. O argumento concluirá com algumas observações da natureza do progresso conforme mudamos do Velho Testamento ao Novo Testamento. Mas antes de chegarmos nisso, gostaria de falar um pouco sobre uma questão relacionada – devemos esperar encontrar instruções precisas em relação ao louvor no Novo Testamento?

A necessidade da revelação

A lguns dizem que o Novo Testamento não é como o Velho Testamento neste sentido. Devemos concordar, certamente, que diferenças vastas são encontradas entre os dois. O Novo Testamento não tem código de lei tal como é encontrado no Velho Testamento. Mas você já pensou nas implicações desta questão? Jesus não ensina nada do assunto de louvor? Ele simplesmente nos deixou a nossa própria discrição? Se somos deixados simplesmente a nosso próprio juízo, então certamente devemos levantar a questão de se o curso da revelação divina é caracterizado pela regressão ao invés do progresso. Certamente esta visão nos levaria de volta ao período agitado dos juízes antes do estabelecimento do reino. A desordem agitada daquele período é explicada em Juízes 17:6. “Naqueles dias, não havia rei em Israel; cada qual fazia o que achava mais reto.” Esta afirmação é repetida em Juízes 21:25.

A humanidade fez tanto progresso que cada homem pode ser confiado a fazer o que for reto no seu ver, confiante de que irá ao encontro da aprovação de Deus? Os homens sábios e profetas do Velho Testamento não encorajam o otimismo neste sentido. Vamos ver o que eles nos dizem: 

“Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Provérbios 14:12). 

“Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR, porque, assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos” (Isaías 55:8-9). 

“Eu sei, ó SENHOR, que não cabe ao homem determinar o seu caminho, nem ao que caminha o dirigir os seus passos” (Jeremias 10:23).

Nem o Novo Testamento nos levaria a ser mais otimistas. Considere, por exemplo, a descrição dada por Paulo em Romanos 1:18-31 da fossa moral na qual a humanidade se afundou depois de abandonar a Deus. Mesmo a maneira de salvação através de um Messias crucificado não é algo que o homem faria pelos seus próprios recursos. Só poderia saber disso pela sabedoria divina (1 Coríntios 1:18 - 2:16). Paulo fala tão claramente que não deixa possibilidade de entender mal que a maneira da carne leva ao desastre; que devemos seguir a liderança do Espírito se quisermos viver (Romanos 8:1-17).

Mesmo os cristãos não eram isentos do apelo da carne. Ananias e Safira são evidência disso (Atos 5:1-11). Como também é Simão, o mágico (Atos 8:9-24). Como também são os discípulos em Tiro (Atos 21:4) e Cesaréia (Atos 21:7-14), que entenderam errado uma revelação do Espírito e avisaram a Paulo que não fossem a Jerusalém. Em relação ao assunto de louvor em si, Paulo teve que avisar os cristãos a respeito de algo chamado de “culto de si mesmo” (Colossenses 2:23) – louvor que surge do próprio desejo ao invés do louvor revelado por Deus.

Depois de ouvir a amostra de passagens, não estou impressionado pela idéia de simplesmente seguir os nossos próprios instintos a respeito de como viver e como louvar a Deus. Os seres humanos precisam da revelação divina. A mente de Deus não pode ser conhecida a não ser pela revelação. Não ousemos proceder baseado no instinto humano e na especulação.

A quem devemos nos voltar: a Davi ou aos apóstolos?

O nosso Senhor Jesus nos ensinou o que ele quer que saibamos através de seus apóstolos escolhidos. 1 Coríntios dá uma evidência abundante do padrão apostólico do ensinamento em relação à fé e à prática da igreja. Timóteo, escreveu Paulo em 1 Coríntios 4:17, “vos lembrará os meus caminhos em Cristo Jesus, como, por toda parte, ensino em cada igreja”. Este padrão de ensinamento se aplicava ao casamento, pois Paulo disse deste assunto, “É assim que ordeno em todas as igrejas” (1 Coríntios 7:17). 1 Coríntios 11:16 também dá evidências da fé e prática comum entre as igrejas. Paulo escreveu: “Contudo, se alguém quer ser contencioso, saiba que nós não temos tal costume, nem as igrejas de Deus”. As ordens dadas em 1 Coríntios 14 em relação às reuniões públicas eram as mesmas “em todas as igrejas dos santos” (v. 33). A ordem que Paulo deu aos coríntios em relação à oferta foi a mesma que ele deu às igrejas da Galácia (1 Coríntios 16:1 em diante).

Pode existir dúvida de que uma regra comum de fé e prática foi seguida em todas as igrejas? Paulo estava enfurecido com o pensamento de que uma igreja talvez presumiria seguir uma regra diferente daquela que operava em todas as igrejas. Quando os coríntios foram tentados a fazer seu próprio caminho, Paulo exclamou com indignação: “Porventura, a palavra de Deus se originou no meio de vós ou veio ela exclusivamente para vós outros?” (1 Coríntios 14:36). Baseado em que, vocês seguem uma regra diferente da regra apostólica que eu estabeleci em todas as igrejas?

O Velho Testamento não alega ser completo ou final. O Velho Testamento testemunha à sua própria natureza incompleta e provisória. Este é o argumento do Livro de Hebreus. Por exemplo, “Se, portanto, a perfeição houvera sido mediante o sacerdócio levítico”, Deus jamais teria prometido outro sacerdote, segundo a ordem de Melquisideque, em Salmo 110:4 (Hebreus 7:11). “Se aquela primeira aliança tivesse sido sem defeito”, Deus não teria prometido uma nova aliança, em Jeremias 31:31-34 (Hebreus 8:6-13). Se os sacrifícios de animais fossem o suficiente para tirar os pecados, Salmo 40:6 em diante não teria falado da insatisfação de Deus em relação a eles (Hebreus 10:1-4). Nestas passagens e em outras o Velho Testamento testemunha a sua própria insuficiência.

Mas é diferente no Novo Testamento. Os escritos do Novo Testamento comunicam uma consciência inteiramente diferente. Pedro estava confiante que a verdade revelada pelos apóstolos continha “todas as coisas que conduzem à vida e à piedade”, e que tudo que ele precisava fazer era escrever isso, para que preservasse a verdade na memória da igreja (2 Pedro 1, especialmente versículos 3 e 12-16; veja 3:1 em diante). Paulo antecipou a apostasia que estava por vir, mas não via necessidade de revelações continuadas para lidar com isso. Ao invés disso, ele exortou os cristãos: “Assim, pois, irmãos, permanecei firmes e guardai as tradições que vos foram ensinadas, seja por palavra, seja por epístola nossa” (2 Tessalonicenses 2:15). Ele os mandou a apartarem “de todo irmão que ande desordenadamente e não segundo a tradição que de nós [dos seus professores apostólicos] recebestes” (2 Tessalonicenses 3:6). João fixava que os cristãos da sua época já sabiam tudo o que precisavam saber, e disse: “não tendes necessidade de que alguém vos ensine” (1 João 2:20, 27). Ele explicou como diferenciar a verdade e o erro: “Nós [ou seja, as testemunhas apostólicas – veja 1:1-4] somos de Deus; aquele que conhece a Deus nos ouve; aquele que não é da parte de Deus não nos ouve. Nisto reconhecemos o espírito da verdade e o espírito do erro” (1 João 4:6). A prova é se a pessoa presta atenção aos ensinos dos apóstolos. Os apóstolos eram juízes em tronos, ungidos pelo próprio Jesus (Mateus 19:28). Cada assunto controverso tem que ser submetido ao tribunal supremo para a decisão; e o seu veredito é final.

Como, então, devemos aprender a maneira de louvar aprovado por Deus? E, especificamente, como deve ser resolvida a questão da música? No Velho Testamento, quando a apostasia havia corrompido o louvor, reis reformadores como Ezequias e Josias voltavam a Davi, e o louvor foi restaurado de acordo com o sistema prescrito por Davi. A mesma coisa foi feita depois do cativeiro babilônico. Os lideres de Judá não instituíram um novo sistema. Eles restauraram o sistema de Davi.

Mas no Novo Testamento nós não aprendemos a voltar a Davi. Aprendemos a voltar aos apóstolos, que foram escolhidos pelo nosso Mestre e que falavam por ele. Os apóstolos de Jesus Cristo devem ser os nossos professores como eram professores dos cristãos primitivos.

O que os apóstolos nos ensinam a respeito da música no louvor?

Da história do Velho Testamento para o ensinamento do Novo Testamento

Da última vez eu estava apontando o fato que o silêncio do Novo Testamento em relação a música instrumental no louvor não pode ser avaliado corretamente sem dar atenção ao ambiente no qual este silêncio ocorre. Este ambiente incluiria tanto a história do Velho Testamento quanto o ensinamento positivo do próprio Novo Testamento. Então quero ligar esta lição à anterior ao resumir o que descobrimos em relação a música no louvor no Velho Testamento.

Não há evidências de uma utilização sistemática ou organizada no louvor até a época de Davi. Davi na verdade foi o “pai da música hebraica”. Ele fez preparações elaboradas para o serviço do templo em antecipação da época em que o templo seria construído por Salomão. Ele organizou os sacerdotes e levitas em 24 turnos e deu tarefas a vários grupos. Davi é o único que organizou os cantores e instituiu o serviço de canto ligado ao templo. Este serviço de canto incluía tanto a música vocal quanto a instrumental.

As instituições de Davi foram simplesmente aceitas pelos reis que seguiram. Depois de períodos de apostasia os reis reformadores restauraram estas instituições de Davi. Foi o mesmo depois do cativeiro babilônico. O serviço de canto foi restaurado de acordo com as instituições de Davi.

Eu tenho quatro observações em relação ao serviço de canto do Velho Testamento, que envolviam a música instrumental. Primeiro, este serviço de canto organizado e sistematizado foi instituído por Davi. Segundo, foi ligado a Jerusalém. Terceiro, foi ligado ao templo. Quarto, foi ligado aos levitas.

Ensinamento do Novo Testamento contra este fundo

A gora temos diante de nós o fundo contra o qual o ensinamento do Novo Testamento deve ser avaliado. Estamos prontos a virar ao Novo Testamento, e iniciamos com o princípio importante deixado pelo nosso Senhor Jesus na sua conversa com a mulher junto ao poço em Samaria (João 4:19-24).

Você pode lembrar que Jesus apenas se revelou aos poucos a esta mulher. Mas um salto ocorreu na sua compreensão dele quando Jesus demonstrou conhecimento sobrenatural da sua vida, e ela disse: “Senhor, vejo que tu és profeta”. Ela, então, aproveitou a presença de uma pessoa que ela agora considerava profeta para colocar diante dele a controvérsia entre os samaritanos e os judeus referente ao lugar correto de louvar. “Nossos pais”, ela disse, “adoravam neste monte”, referindo-se ao monte Gerizim, “dizeis [Plural: vós judeus] que em Jerusalém é o lugar onde se deve adorar”. Neste ponto Jesus pôs diante desta mulher um pouco do ensinamento mais significante em relação ao louvor em toda a Palavra de Deus. “Mulher”, ele disse, “podes crer-me que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis [Plural as três vezes] ; nós adoramos o que conhecemos, porque a salvação vem dos judeus. Mas vem a hora e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque são estes que o Pai procura para seus adoradores. Deus é espírito; e importa que os seus adoradores o adorem em espírito e em verdade.”

Jesus não poderia simplificar mais. Jerusalém, com o seu templo, não teria mais o significado que tinha. O Pai não seria louvado nem no monte Gerizim, como fizeram os samaritanos, nem em Jerusalém, como fizeram os judeus. Os verdadeiros adoradores adorariam o Pai em espírito e verdade, e o lugar seria insignificante.

Depois de períodos de apostasia, reformadores pré-exílicos como Joiada, Ezequias e Josias restauraram o serviço de canto prescrito por Davi – aquele serviço ligado com Jerusalém, o templo e os levitas. Os judeus da restauração haviam feito a mesma coisa depois do cativeiro babilônico. Mas não é tão claro quanto o dia mais ensolarado que os adoradores do Novo Testamento não voltaram a Davi como fizeram os reis reformadores e como fizeram os judeus da restauração? Sob Cristo Jesus, Jerusalém perdeu a sua significância religiosa. O templo não existe mais. Nós não temos mais um sacerdócio levítico permanecendo “dia após dia, a exercer o serviço sagrado e a oferecer muitas vezes os mesmos sacrifícios (animais), que nunca jamais podem remover pecados” (veja Hebreus 10:11). Este sacerdócio foi anulado pelo sacrifício todo-suficiente de Jesus Cristo. O serviço de canto davídico ligado com o templo e os levitas já não existe há muito tempo.

Não podemos, portanto, presumir que já que a música instrumental fazia parte do sistema do Velho Testamento instituido por Davi, deveria fazer parte do louvor do Novo Testamento. Não pode haver a menor dúvida de onde está o fardo das provas neste assunto. O sistema inteiro que incluía a música instrumental é obsoleto. Já foi há muito tempo. Se alguém pensar que a música que fazia parte daquele sistema permanece, ele precisa mostrar as provas. Ele deve citar evidência do Novo Testamento que prove o seu ponto. Mas não o invejo nesta tarefa. Pois o fato é que o fardo é maior do que fiz parecer até então. Deixe-me mostrar-te contra o que ele está lutando.

Louvor no Velho Testamento e no Novo Testamento

Q uero mostrar-te o peso integral do fardo que um defensor da música instrumental no louvor deve carregar. Mas antes de desenvolver este ponto, quero colocar diante de você alguns fatos. Estes fatos são relacionados à diferença entre o Velho Testamento e o Novo Testamento referente ao louvor que é pedido do povo de Deus. Os Salmos, particularmente, nos dão o sabor do ambiente do Velho Testamento.

Algumas das referências ao louvor nos Salmos falam apenas de canto. Salmo 9, por exemplo, primeiro fala de dar graças ao Senhor e mostrar as suas obras maravilhosas (v. 1). Estas expressões no versículo 1 são seguidas no versículo 2 com a linha: “ao teu nome, ó Altíssimo, eu cantarei louvores”. Depois, no versículo 11, fala ao povo: “Cantai louvores ao SENHOR, que habita em Sião; proclamai entre os povos os seus feitos”.

Mas os Salmos transbordam com tais expressões: “Cantarei ao SENHOR, porquanto me tem feito muito bem” (13:6). Por motivos dados previamente, o salmista diz: “Glorificar-te-ei, pois, entre os gentios, ó SENHOR, e cantarei louvores ao teu nome” (18:49). “Nós cantaremos e louvaremos o teu poder” (21:13). “Cantarei e salmodiarei ao SENHOR” (27:6). Mas isso é apenas uma amostra. Há muitas outras referências a cantar louvores sem referência a nenhum instrumento mecânico.

Por outro lado, os Salmos também transbordam com referências ao louvor por meio de instrumentos mecânicos: “Celebrai o SENHOR com harpa, louvai-o com cânticos no saltério de dez cordas” (33:2). “Ao som da harpa eu te louvarei, ó Deus, Deus meu” (43:4). Salmo 57:7-9 fala dos salmos e a harpa em ligação com o cantar de louvores. [ Veja 108:2, que é parecido]  “Eu também te louvo com a lira, celebro a tua verdade, ó meu Deus; cantar-te-ei salmos na harpa” (71:22).

Num contexto que fala de cantar em voz alta a Deus e fazer-lhe um som agradável. Salmo 81:2 diz: “Salmodiai e fazei soar o tamboril, a suave harpa com o saltério”.

Salmo 92:3 fala de cantar louvores “com instrumentos de dez cordas, com saltério e com a solenidade da harpa”.

Então, há Salmo 98:5-6 – “Cantai com harpa louvores ao SENHOR, com harpa e voz de canto; com trombetas e ao som de buzinas, exultai perante o SENHOR, que é rei”.

“No saltério de dez cordas, te cantarei louvores” (Salmo 144:9). “Entoai louvores, ao som da harpa, ao nosso Deus” (147:7). “Cantem-lhe salmos com adufe e harpa” (149:3). “Louvai-o ao som da trombeta; louvai-o com saltério e com harpa” (150:3). E assim por diante. Voltarei a Salmo 150 em um momento.

Não tenho nenhuma confiança de que juntei todas as referências a cantar e louvar ao Senhor por meio de instrumentos mecânicos. Mas é uma amostra justa. Há muitas delas.

Agora quero colocar do lado destas as referências do Novo Testamento aos cristãos e a sua música e louvor de Deus. A evidência começa com as referências em Mateus 26:30 e Marcos 14:26 no final da última ceia de Jesus com os discípulos: “Tendo cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras.” Depois há a afirmação a respeito de Paulo e Silas no cárcere filipeu: “Por volta da meia-noite, Paulo e Silas oravam e cantavam louvores a Deus...” (Atos 16:25). Romanos 15:9 é uma citação dos Salmos: “Por isso, eu te glorificarei entre os gentios e cantarei louvores ao teu nome”. 1 Coríntios 14:15 fala de cantar com o espírito e com a compreensão.

Duas passagens nas epístolas de Paulo nos dizem mais a respeito da música na igreja. Uma é Efésios 5:18 em diante: “E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais....”. A outra é da epístola paralela, Colossenses: “Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração” (3:16).

Hebreus 2:12 é uma citação de Salmo 22:22, um salmo sobre o Messias: “cantar-te-ei louvores no meio da congregação”.

Finalmente, Tiago 5:13 recomenda cantar louvor como a expressão natural de um coração alegre.

É só isso! Os salmos estavam cheios de referências falando de louvar a Deus com a harpa, a salmodia e outros instrumentos. Que contraste marcante o Novo Testamento apresenta! Não tem uma palavra nele de louvar a Deus com instrumentos mecânicos. Efésios 5:19 é de interesse especial. Onde a versão Revista e Corrigida fala, “cantando e salmodiando ao Senhor no vosso coração” a versão Revista e Atualizada diz, “entoando e louvando de coração ao Senhor”. “Louvar” e “salmodiar” são traduções do verbo grego que tantas vezes é ligada ao tocar da harpa na literatura grega. Mas Paulo não fala aqui de produzir música nem pela harpa nem por outro instrumento tal. Ele fala da música do coração. [O SENHOR mandou a música instrumental, pelos seus profetas (2 Crônicas 4 ônicas 29:25); Jesus não a mandou pelos seus apóstolos” (Homer Hailey, carta)

Este contraste entre o Velho Testamento e o Novo se torna mais notável ainda quando se considera que os cristãos tinham ainda mais razões que os judeus para comemorarem os louvores ao Senhor. Considerem a explosão de louvor com a qual Paulo começa a sua epístola aos efésios e Pedro começa a sua primeira epístola. A redenção em Cristo Jesus certamente dava razão de sobra para as maiores expressões de louvor das quais os seres humanos são capazes. Mas o “sacrifício de louvor” que o Novo Testamento nos exorta a oferecer a Deus não vai além do “fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hebreus 13:15). Há uma razão para isso? Acredito que há. Aquela razão envolve a diferença de natureza entre as duas alianças.

A natureza do progresso do Velho Testamento ao Novo Testamento

A maioria de nós provavelmente compreende o conceito da progressividade quando é relacionado à revelação divina, tenhamos pensado em expressar isso nestes termos ou não. Para simplificar, a nova aliança é melhor que a velha aliança. Mas como a nova aliança é melhor que a velha aliança? Qual a natureza da progressão que ocorre conforme formos da religião do Velho Testamento à religião do Novo Testamento? É simplesmente um assunto de quantidade, com o Novo Testamento provendo mais do mesmo? Ou é um assunto de qualidade, uma diferença na natureza fundamental?

Deixe eu ilustrar o meu ponto ao voltar a Salmo 150. O salmo é curto e posso colocar tudo diante de você:

“Aleluia!
Louvai a Deus no seu santuário;
louvai-o no firmamento, obra do seu poder.
Louvai-o pelos seus poderosos feitos;
louvai-o consoante a sua muita grandeza.
Louvai-o ao som da trombeta;
louvai-o com saltério e com harpa.
Louvai-o com adufes e danças;
louvai-o com instrumentos de cordas e com flautas.
Louvai-o com címbalos sonoros;
louvai-o com címbalos retumbantes.
Todo ser que respira louve ao SENHOR.
Aleluia!”

Então, este salmo final é um chamado para louvar com todos os tipos de instrumentos. Agora, novamente, coloco a questão para você: Qual é o avanço feito do Velho Testamento ao Novo Testamento? O Novo meramente nos leva mais adiante na mesma direção? A progressão envolve mais e mais da mesma coisa? Você, por exemplo, esperaria encontrar o Novo Testamento mandando que Deus seja louvado com ainda mais tipos de instrumentos? Ou a diferença está em outras linhas? É uma diferença fundamental na natureza?

Considere algumas outras ilustrações – o sujeito do sacrifício, por exemplo. Quando o templo foi dedicado Salomão ofereceu 22,000 bois e 120,000 ovelhas. O altar de bronze certamente não comportaria tanto. Então Salomão santificou “o meio do átrio” diante do templo e lá ofereceu os sacrifícios (1 Reis 8:62-64).

Mas o que encontramos quando nos tornamos ao Novo Testamento – mais ainda destes sacrifícios animais, indo além até do número oferecido por Salomão? Todos nós sabemos a resposta. O livro de Hebreus nos ensinou que a oferta de Jesus Cristo na cruz foi um sacrifício suficiente para todo o tempo, e nem existem mais sacrifícios animais (Hebreus 10:1-18). Os sacrifícios que nos são pedidos são de natureza espiritual (1 Pedro 2:5) – “sacrifícios espirituais” (Hebreus 13:15); fazendo o bem e compartilhando com outros (Hebreus 13:16); o sacrifício dos nossos próprios corpos a Deus (Romanos 12:1-2). Os sacrifícios do Novo Testamento não são mais dos mesmos. São diferentes na natureza fundamental.

E em relação a Jerusalém? Paulo escreve: “Ora, Agar é o monte Sinai, na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual, que está em escravidão com seus filhos. Mas a Jerusalém lá de cima é livre, a qual é nossa mãe” (Gálatas 4:25-26). A nossa cidade materna não é deste tipo terrestre ou sombra, mas a “Jerusalém celestial” própria – a real “cidade do Deus vivo” (Hebreus 12:22).

E o templo? Jesus usou os Romanos para destruir Jerusalém e o seu templo, sem deixar uma pedra sobre outra (Mateus 24:1 em diante). A igreja foi ensinada a esperar um outro templo do mesmo tipo, talvez maior e melhor, a ser construído no seu lugar? Nem por um minuto. A igreja era por si só o templo, possuída pelo Espírito de Deus (1 Coríntios 3:16 em diante), “habitação de Deus no Espírito” (Efésios 2:22), uma casa espiritual feita de pedras que vivem (1 Pedro 2:5).

E as pessoas? Deus não tem mais um povo identificado por uma nação de carne que tem a sua lei escrita em pedras ou pergaminhos, mas com apostasia e descrença nos seus corações. O povo da sua nova aliança é um povo espiritual com a lei escrita nos seus corações (Jeremias 31:31-34). O reino de Deus tem sido tirado de Israel e dado à nação espiritual “que lhe produza os respectivos frutos” (Mateus 21:43). É o povo que veio a Cristo de cada nação que são chamados de “raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus” (1 Pedro 2:9).

Não é à toa que o Novo Testamento não tem salmos exortando as pessoas a louvarem a Deus com o som de trombeta, saltério, harpas, adufe e danças, instrumentos de cordas e flautas, címbalos sonoros e címbalos retumbantes! Não é à toa que a música que somos exortados a fazer é a música do coração! É isto que devemos esperar encontrar no Novo Testamento. É uma forma de louvor a Deus que é consistente com a natureza espiritual da ordem inteira das coisas no Novo Testamento.

O louvor do Novo Testamento é espiritual. Não é algo produzido pela maquinaria. Não escrevemos as nossas orações para serem colocadas numa roda de orações e viradas diversas vezes. Nem louvamos a Deus por meio de algum instrumento mecânico. As palpitações internas produzidas por um órgão não são espirituais, mas sensuais e animais.

Há muitos anos eu tive um amigo batista em Gainesville, Georgia, que vendia móveis, mas também trabalhava com alguns órgãos. Eu o estava visitando na loja um dia quando ele começou a tocar um órgão. Estava perto e os tons ressonantes do órgão começaram a tremer pelo meu interior. Não tentaria ser mais específico que isso. Mas estava me afetando de alguma maneira lá dentro. Devo ter sorrido ou dado alguma expressão da sensação. De qualquer maneira o meu amigo batista sentiu obrigado a oferecer uma explicação. Ele disse que é “a mesma coisa que faz um cachorro uivar quando passa um trem”.

Incrível! Em todo o mundo as pessoas entram nas catedrais. Elas vêem as vistas – o vidro tingido, as imagens; sentem o cheiro do incenso; ouvem o som do orgão. Todas elas pensam, “Ah! Isso não é espiritual?” Mas não é espiritual de jeito nenhum. É sensual. É animal. É “a mesma coisa que faz um cachorro uivar quando passa um trem”.

O problema que enfrenta os defensores

Mas devo terminar o meu argumento. Prometi mostrar a você o que os defensores da música instrumental no louvor enfrentam. Em primeiro lugar, o fardo das provas está neles. Jesus ensinou claramente que o sistema de louvor com o qual a música instrumental foi ligado é obsoleto, algo do passado. O sistema de louvor que incluía a música instrumental acabou. Se alguém pensa que a música instrumental permanece, deve provar isso citando a evidência do Novo Testamento.

Mas não é isso que esperamos encontrar no Novo Testamento, e então o seu fardo é pesado com certeza. A presunção é contra ele. Quando consideramos a natureza espiritual de todos os aspectos da religião do Novo Testamento, não esperamos encontrar música produzida por uma máquina no Novo Testamento. A música instrumental era apropriada para o materialismo e a carnalidade da economia do Velho Testamento. Mas não se encaixa na natureza espiritual do cristianismo. Se alguém que compreendesse a natureza espiritual do cristianismo encontrasse uma referência do Novo Testamento a música mecânica no louvor da igreja, ficaria chocado. Perguntaria: O que isso está fazendo aqui? Não se encaixa. Está fora do seu lugar. Atrapalha a harmonia.

Muitos trabalharam tediosamente para encontrar um tipo de justificação pela música que adoram, mas não podem provar que é aceitável a Deus. Sobem ao Céu para rebaixar na igreja um símbolo de realidade espiritual encontrada nas imagens do livro de Apocalipse. Eles descem ao abismo para trazer as relíquias do judaísmo da morte. Torturam as palavras gregas em dizer o que querem que dizem.

Mas todas estas manipulações servem uma causa que estava perdida desde o começo. Se fossem bem-sucedidas na tentativa de justificar a música instrumental no louvor, simplesmente terão provado que o cristianismo tem um elemento nele que não se encaixa no resto. Por que não reconhecer isso desde o começo e evitar o trabalho?

Quero lhes dizer, meus amigos: Quando alguém traz um argumento para justificar a música instrumental no louvor da igreja, quero olhar para ele o mais perto possível, embaixo das luzes mais fortes possíveis. Ele parece estar tentando trazer algo ao louvor da igreja que não se encaixa com todo o resto que sabemos da sua natureza. A sua “prova” terá que agüentar as avaliações mais cuidadosas possíveis antes de podermos deixá-la passar.

Uma palavra final sobre atitudes

N ão vejo utilidade em fazer julgamentos a respeito da pecaminosidade da música instrumental no louvor. Nem vejo utilidade em especular sobre quem irá ao céu e quem não irá. Mas se o meu raciocínio tem sido correto, parece claro que a música instrumental mais ou menos frustra um propósito divino. Ela enfraquece, se não totalmente destrói, o efeito que Deus quer que a morte tenha sobre nós.

É difícil ir para o céu. Há muito contra nós neste mundo. Devemos buscar a Deus continuamente; devemos viver na fé; devemos nos manter ligados ao Salvador. Devemos nos alimentar da sua palavra; devemos estar determinados a fazer a vontade de Deus o nosso propósito em tudo. Precisamos ser tão fiéis quanto pudermos na nossa utilização das ferramentas que Deus deixou para o nosso desenvolvimento espiritual; e isso certamente inclui o louvor.

Às vezes os cânticos saem mal – sem entusiasmo, sem vida, sem espírito. Mas a falha não deve ser remediado por meio de maquinaria. A falta está dentro dos nossos corações. A solução é nos inclinarmos diante daquele que alegamos louvar, permitindo a ele nos encher com a sua plenitude (veja Efésios 3:14-19). Lembre-se de Efésios 5:18-21 e Colossenses 3:16-17.

“E não vos embriagueis com vinho, no qual há dissolução, mas enchei-vos do Espírito, falando entre vós com salmos, entoando e louvando de coração ao Senhor com hinos e cânticos espirituais, dando sempre graças por tudo a nosso Deus e Pai, em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, sujeitando-vos uns aos outros no temor de Cristo.”

“Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração. E tudo o que fizerdes, seja em palavra, seja em ação, fazei-o em nome do Senhor Jesus, dando por ele graças a Deus Pai.”

–por L. A. Mott, Jr.


ESTUDOS BÍBLICOS       PESQUISAR NO SITE       MENSAGENS EM ÁUDIO      MENSAGENS EM VÍDEO     

ESTUDOS TEXTUAIS      ANDANDO NA VERDADE     O QUE ESTÁ ESCRITO?      O QUE A BIBLIA DIZ?

 

O Que Esta Escrito?
 
©1994, ©1995, ©1996, ©1997, ©1998, ©1999, ©2000, ©2001, ©2002, ©2003, ©2004, ©2005, ©2006, ©2007, ©2008, ©2009
 Redator: Dennis Allan, C.P. 60804, São Paulo, SP, 05786-970.

Andando na Verdade
©1999, ©2000, ©2001, ©2002, ©2003, ©2004, ©2005, ©2006, ©2007, ©2008
Redator: Dennis Allan, C.P. 60804, São Paulo, SP, 05786-970

Todos os artigos no site usados com permissão dos seus autores e editoras, que retêm direitos autorais sobre seu próprio trabalho. / 
All of the articles on this site are used with permission of their authors and publishers, who retain rights of use and copyright control over their own work.

Estudos Bíblicos
estudosdabiblia.net
©1995-2015 Karl Hennecke, USA