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Por que as
Bíblias católicas são diferentes das outras?
Se
comparar uma Bíblia católica com outras Bíblias, perceberá muitas semelhanças.
Basicamente tudo que se encontra em outras Bíblias está nas Bíblias católicas.
Mas, há diferenças:
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As Bíblicas católicas contêm
sete livros no Antigo Testamento que não se encontram em outras Bíblias (chamadas
por alguns de “Bíblias protestantes” ou “Bíblias de crentes”).
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Alguns livros (Ester e Daniel)
nas Bíblias católicas contêm trechos que não se encontram em outras Bíblias.
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Os nomes de alguns livros são
diferentes.
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Algumas divisões de capítulos
e versículos são diferentes. Não precisamos nos preocupar com esses últimos
dois itens, mas, por que diferenças de conteúdo, até de livros inteiros?
Tanto católicos como protestantes têm
apresentado argumentos fracos ou inválidos para responder a essa pergunta.
Alguns católicos afirmam que Martinho Lutero removeu esses livros e trechos da
Bíblia sem base nenhuma. Seria mais acurado dizer que ele não aceitou sete
livros que nunca foram considerados iguais aos outros, e que tinha motivos históricos
para isso. Sugerem que Jesus e os apóstolos, ao citar a versão grega do Antigo
Testamento, automaticamente aprovaram esses livros extras. Tal afirmação vai
além das evidências. Por outro lado, alguns não-católicos fazem alegações
exageradas, dando a impressão que esses livros apareceram do nada 1.500 anos
depois de Cristo, no concílio de Trento. Afirmam, às vezes, que Jesus e os apóstolos
jamais citaram os livros questionáveis. Seria melhor dizer que não há citação
exata, nem que mencione o nome de um desses livros, mas não pode negar que vários
trechos do Novo Testamento têm paralelos nos livros chamados deuterocanônicos
(pelos católicos) ou apócrifos (pelos que adotaram a palavra usada por
Martinho Lutero). Um dos exemplos mais nítidos é Tiago 1:19 (“Vocês já
sabem, meus queridos irmãos: cada um seja pronto para ouvir, mas lento para
falar, e lento para ficar com raiva”) comparado a Eclesiastico 5:11 (“Esteja
pronto para ouvir e lento para dar a resposta”). [Citações da Bíblia
Sagrada, Edição Pastoral.]
De onde vieram os livros
diferentes? Tradutores católicos Ivo Storniolo e Euclides Martins Balancin
explicam:
“Para entender isso é preciso
conhecer um pouco a história do texto do Antigo Testamento. Ele, inicialmente,
só existia em hebraico. Quando os judeus se espalharam pelo mundo, sentiram
necessidade de traduzi-lo para uma língua mais universal naquela época: o
grego. Acontece que no Antigo Testamento traduzido foram colocados alguns livros
que não estavam na Bíblia hebraica e que eram mais recentes.... Os
protestantes consideram como Palavra de Deus só os livros do Antigo Testamento
que fazem parte da Bíblia hebraica, enquanto que a Igreja católica considera
também alguns que foram acrescentados na tradução grega feita pelos judeus.
Essa é a diferença entre a Bíblia católica e a protestante. O Novo
Testamento é igualzinho. Portanto, se você tem uma Bíblia protestante não
precisa rasgá-la ou queimá-la. Basta você estar ciente que faltam esses
livros, que você poderá ler numa Bíblia católica.”
Como devemos enxergar estas
diferenças? Uma análise dos argumentos e evidências oferecidas pelos dois
lados revela vários fatos importantes:
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A
diferença não é apenas uma briga do Século XVI (entre Martinho
Lutero e o Concílio de Trento), mas certamente chegou a seu auge na época
da Reforma Protestante. Quando Lutero adotou apenas os livros do Antigo
Testamento que aparecem nas Escrituras hebraicas e chamou os outros de “apócrifos”
(livros não inspirados por Deus), a Igreja Católica reagiu com uma declaração
do Concílio de Trento (em 1546), oficialmente incluíndo na Bíblia esses
livros que chamaram de “deuterocanônico” (que vem depois do cânone, ou
seja, depois do “conjunto dos livros considerados de inspiração divina”
- Houaiss). Devemos observar que Lutero traduziu os livros que
considerava apócrifos, mas separados dos livros que julgava inspirados.
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O
fato de um livro não ser citado por nome no Novo Testamento não prova, por
si só, que o mesmo não seja canônico. Como os católicos freqüentemente
observam, vários livros do Antigo Testamento, aceitos geralmente em todas
as Bíblias, não são mencionados por nome no Novo Testamento.
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A
diferença não é meramente um desacordo entre católicos e protestantes.
Os judeus morando na Palestina 2.000 anos atrás aceitaram, geralmente, 39
livros que foram escritos em hebraico (embora dividissem em 22 ou 24 livros).
Para eles, as Escrituras terminaram com as histórias relatadas em Esdras e
Neemias, aproximadamente 400 anos antes da vinda de Jesus. Uma tradução do
Antigo Testamento foi feito no Egito no período entre os Testamentos. É
conhecida como a Septuaginta ou pela abreviatura LXX; a mesma tradução é
chamada de versão Alexandrina ou “cânon comprido” (porque inclui mais
livros do que o Velho Testamento geralmente aceito na Palestina).
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Os
católicos tendem a basear a sua fé na autoridade da Igreja Católica, a
suposta fonte da Bíblia. Felipe de Aquino diz: “Se não fosse a
Igreja Católica, não existiria a Bíblia como a temos hoje, com os 73
livros canônicos, isto é, inspirados pelo Espírito Santo. Foi num longo
processo de discernimento que a Igreja, desde o tempo dos Apóstolos, foi
‘berçando’ a Bíblia, e descobrindo os livros inspirados. Se você
acredita no dogma da infalibilidade de Igreja, então pode acreditar na Bíblia
como a Palavra de Deus.”
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Os
autores inspirados do Novo Testamento, porém, afirmaram que as Escrituras
foram entregues à igreja, e não que foram produzidas pela igreja. A
fé (a revelação de Deus) foi “...uma
vez por todas entregue aos santos”
(Judas 3). Pedro concorda: “Visto como,
pelo seu divino poder, nos têm
sido doadas todas as coisas que conduzem à vida e à piedade, pelo
conhecimento completo daquele que nos chamou para a sua própria glória e
virtude, pelas quais nos têm sido doadas as suas preciosas e mui grandes
promessas...” (2 Pedro 1:3-4). A igreja de Deus não é a fonte
da Bíblia, e sim o resultado dela.
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Embora
houvesse discussões durante os séculos posteriores sobre a autenticidade
de alguns livros, as Escrituras já existiam e eram reconhecidas no primeiro
século. Paulo disse: “Toda a
Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão,
para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de
Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”
(2 Timóteo 3:16-17). Pedro incluiu as cartas de Paulo entre as Escrituras: “...e
tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o
nosso amado irmão Paulo vos
escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes
assuntos, como, de fato, costuma fazer em
todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de
entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as
demais Escrituras, para a própria destruição deles”
(2 Pedro 3:15-16).
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Os
livros acrescentados na LXX e, posteriormente, nas Bíblias católicas, não
são da mesma qualidade dos livros aceitos geralmente no Velho
Testamento. Considere estas ilustrações:
(a) A Edição Pastoral da Bíblia católica, publicada em 1990 pela Editora
Paulus, trata alguns desses livros como novelas, descrevendo-os como ficção
(528).
(b) Livros como os dos Macabeus são muito interessantes, e fornecem informações
valiosas em termos da História entre o Velho e o Novo Testamentos, mas
claramente não alegam ser livros inspirados por Deus. 2 Macabeus 2:19-32
contém a explicação do autor, dizendo que tentava resumir informações
de vários outros livros. Ele não alega ser inspirado por Deus.
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Citações
no Novo Testamento da versão grega (LXX) não são afirmações da
autenticidade de todos os livros incluídos nela. É verdade que
alguns cristãos do primeiro século usaram a versão grega. Este fato até
serve para defender nosso uso de traduções na nossa própria língua.
Alguns versículos no Novo Testamento são realmente parecidos com trechos
dos livros deuterocanônicos. Mas uma citação não é um ato de aprovação
de tudo que se inclui na mesma versão. Paulo citou poetas da Grécia (Atos
17:28) e um “profeta” de Creta (Tito 1:12), mas não afirmou a inspiração
das obras deles. Judas repetiu uma frase falada por Enoque (Judas 14) e
relatada num livro judaico com o nome do mesmo, mas não pediu a inclusão
do livro inteiro no catálogo das Escrituras. Não devemos ficar surpresos
ao encontrar possíveis citações dos livros deuterocanônicos no Novo
Testamento. Ainda não é prova de sua inspiração.
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Citações
depois do Novo Testamento, também, não servem como provas da inspiração
desses livros. Defensores dos deuterocanônicos, freqüentemente,
referem-se a citações feitas nos primeiros dois ou três séculos da época
cristã como provas da aceitação e inspiração destes livros. Se citações
no Novo Testamento já não são provas de inspiração (como explicado
acima), certamente não podemos nos basear em algumas citações de homens
que escreveram no período pós-apostólico.
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A
própria Igreja Católica sempre considerava esses livros diferentes, e
demorou para oficialmente incluí-los no seu catálogo de livros bíblicos.
Alguns defensores de tradição católica fazem afirmações ousadas sobre a
aceitação geral desses livros pelos cristãos primitivos. Para ser justos,
devemos reconhecer que nem todos aceitaram esses livros. Houve acirrados
debates sobre a validade dos deuterocanônicos já no segundo e terceiro séculos.
No final do século IV, Agostinho defendeu esses livros e Jerônimo
discordou. Mesmo não os considerando livros inspirados, este foi obrigado a
incluir os deuterocanônicos na Vulgata, a sua tradução em latim. A boa
parte desses livros duvidosos foi copiada de uma anterior versão (Ítala
Antiga). A distinção entre os livros canônicos e esses outros,
apresentados pelo valor para leitura, foi mantida até os meados do século
XVI.
Por
que tanta controvérsia? Por que a Igreja Católica oficialmente elevou esses
livros ao nível de Escrituras mais de 1500 anos depois da morte de Jesus? Como
devemos enxergar esses livros hoje? O nosso propósito é de entender a verdade
revelada por Deus e aplicá-la em nossas vidas. Para isso, devemos abordar questões
como essas com equilíbrio e justiça.
Todos admitem que a controvérsia,
pelo menos da época da Reforma Protestante até hoje, envolve questões doutrinárias,
especialmente a doutrina católica de purgatório. Os católicos citam 2
Macabeus12 para defender a idéia de purgatório. Neste capítulo, Judas mandou
enterrar os corpos de soldados judeus que morreram numa batalha. Foram
descobertos nos corpos objetos dedicados a ídolos, assim deixando claro que
esses homens morreram no seu pecado de idolatria. Judas e seus homens fizeram
uma coleta para oferecer um sacrifício pelo pecado dos mortos, e rezaram (oraram)
que estes “fossem libertados do pecado”.
Agora que chegamos ao ponto crítico
do debate, vamos observar alguns fatos:
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O livro de 2 Macabeus não alega
ser inspirado, e não apresenta nenhuma revelação de Deus autorizando tal
sacrifício e oração.
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Mesmo se esse ato de Judas
tivesse a autorização de Deus, ainda não seria motivo para praticar tal
coisa hoje em dia. Judas era judeu e viveu na época da Lei de Moisés. Nós
vivemos sob o Novo Testamento. É o sacrifício de Jesus, não o de animais,
que nos traz perdão hoje (Hebreus 10:10-12). É o arrependimento por parte
do próprio pecador que Deus exige hoje (Atos 17:30). Depois da morte, vem o
juízo (Hebreus 9:27). O Novo Testamento não fala de purgatório, nem de
orações pelos pecados dos mortos, nem de pagar pelos próprios pecados
para entrar no céu. A nossa salvação depende do sacrifício e da graça
de Jesus.
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O caso de 2 Macabeus 12
apresenta um problema grave para os católicos. Ironicamente, esse exemplo
de sacrifício e orações pelos pecados dos mortos não se encaixa bem na
doutrina católica. A idolatria sempre é apresentada nas Escrituras como um
dos mais graves de pecados, chamada de abominação diante de Deus. Se os
soldados de 2 Macabeus 12 morreram sem confessar um pecado mortal, o que
adianta fazer sacrifício e “rezar” pelos pecados deles? Será que um
dos livros oficialmente aceitos pelo Concílio de Trento contradiz a
doutrina do mesmo concílio, que exige a confissão dos pecados graves a um
sacerdote?
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Se livros como 2 Macabeus
fizessem parte do Antigo Testamento, apresentariam problema também em relação
à Lei dada através de Moisés, que exigia sacrifícios feitos pelo próprio
pecador. De fato, um dos critérios usados pelos judeus da época para
julgar esses livros foi a própria Lei. Rejeitavam livros que contradiziam a
Lei já revelada.
Hoje, o que devemos pensar sobre as
Bíblias católicas? Quando estudo a Bíblia com pessoas católicas, eu sugiro
que a pessoa acompanhe o estudo usando sua própria Bíblia, pois os
ensinamentos essenciais do Novo Testamento são os mesmos. Podemos até apreciar
o valor histórico de alguns dos livros deuterocanônicos, mas não temos motivo
para elevá-los à posição de Escrituras. É nesse sentido que podem ser
corretamente descritos como livros apócrifos.
–por
Dennis Allan
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